É verdade que a Madeira tem obra feita. Muita de uma importância fulcral na vida das pessoas, outra nem tanto.
É verdade que a Região se desenvolveu nos últimos anos de democracia e de regime autonómico a uma velocidade estonteante, mas que não representou um acréscimo importante em indicadores com educação, onde os insulares, de um arquipélago e de outro, não saíram do rabo da lancha estatístico.
Não é mentira que há pelo país fora exemplos de despesismo a rodos. Dinheiro mal gasto, desorçamentação, derrapagem. Claro que há buracos aqui e além. Que a República tem os seu pecados e pecadilhos governativos.
Mas é uma verdade incontornável que isso não desculpabiliza o que por cá se foi fazendo, perante o silêncio cúmplice de tantos que deviam ter falado. A irresponsabilidade de quem fez por fazer, sem plano, sem norte, com o que não tinha. E agora esconde a factura, que tem de ser paga por todos.
É certo, sabido e assumido por quem nos Governa em Lisboa que a situação das finanças públicas regionais é uma excepção no país, que nos deixa muito próximo da Grécia. Que nos embaraça e nos humilha, até porque estamos perante factos que indiciam prática de crime.
Não é mentira alguma, só para quem tem memória curta, que Alberto João Jardim fez muito pela Madeira em tempos. Que a defendeu com unhas e dentes, com uma dedicação rara nos políticos deste tempo. Mas é verdade também que, por outro lado, a prejudicou e de que maneira. Castrou-a na sua liberdade e minou a capacidade de se impor intelectualmente. O líder do Governo preferiu o controle pelo medo, através de uma teia de interesses, onde uns não se saíram nada mal. E que a oposição, mesmo reconhecendo as condições difíceis da sua acção, não soube/ conseguiu apresentar ao longo dos anos um plano B credível. Acomodou-se.
O povo está encegueirado por uma obra, cara e por vezes inútil, cujo custo está por apurar e por pagar e que compromete a todos. Esta é a verdade. E quando o presidente do Governo Regional insiste na cassete do “está tudo bem, não haverá despedimentos, nem cortes no subsídio”, mente.
É verdade que o continente acordou, tarde e a más horas, e quer que rolem cabeças. Os que até agora calaram e consentiram têm todos uma palavra a dizer. Mas é certo também que os continentais nada têm a ver com a escolha dos madeirenses. Que são gente de bem e sem limitações, lembre-se. Não são burros, mas fruto de uma bomba relógio, de longa duração, que toda a gente viu, mas ignorou, achando que a fazer estragos seria longe.
Não é menos verdade, contudo, que por mais verdades que se assumam neste jogo, haverá sempre consequências, que todos os madeirenses terão de estar preparados para assumir.
A primeira parece-me óbvia: A democracia falhou aqui.