"Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim... Felizmente - felizmente há luar!" Luís de Sttau Monteiro O ano lectivo começou ontem num, aparente, clima de normalidade e estabilidade. Contudo, o ano lectivo arrancou no meio de uma espiral de exigências e sacrifícios, determinados por sucessivos planos de resgate financeiro quer ao país quer à região, planos esses que irão condicionar o normal desenvolvimento do ano que se iniciou. Os votos que nesta altura se endereçam à comunidade educativa, embora sentidos e verdadeiros, carecem de sustentabilidade. Porque, para que o ano lectivo seja produtivo, no sentido de não se resumir, apenas, a mais um ano e a um cumprimento de calendário mas, sim, ser um ano de aposta na construção do projecto pessoal de cada um, rumo a um futuro melhor, precisava de estar assente em princípios estruturais, claramente definidos para o que se quer para a educação e da importância que se dá a um dos principais alicerces na edificação de um país mais culto e mais desenvolvido, por que melhor qualificado. Porém, tal como os "amores de verão", a educação não é, infelizmente, paixão prioritária para o poder político. O ano lectivo iniciou-se sobre a mira dos efeitos dos cortes e recortes de orçamentais que hipotecam, inexoravelmente, o futuro do sistema educativo, impostos por entidades externas e internas que, do alto da sua sabedoria e engenharia económica e financeira, determinaram como o pais e a região se vão gerir nos próximos anos e onde, essencialmente, vão cortar. A educação é, quase sempre, o primeiro sector social a sofrer os cortes mais intensos e de efeitos imediatos. São os cortes, chamados, eufemísticamente, de racionalização de recursos, que mandam para o desemprego dezenas de milhares de docentes, que criam obstáculos à vida nas escolas, agravando a dificuldade em gerir os seus, já insuficientes, orçamentos, acrescido do aumento das carências sociais que, inevitavelmente, vão atravessar os muros da escola e lá se instalar. Este "cortar a direito" na educação, surge, simultaneamente, quando à educação se colocam novos desafios, nomeadamente o alargamento da escolaridade obrigatória, em que se anuncia a necessidade urgente de combate ao insucesso escolar, num tempo em que as escolas são confrontadas com a necessidade de alargar respostas e responder a mais exigências. Fazer mais e melhor com menos recursos e menos, muito menos, financiamento. É o que é pedido aos professores. Eu sei que a profissão docente é uma profissão de missão. Mas não lhes podem pedir milagres. O adensar da instabilidade, da incerteza e as consequências do desemprego vão instalar-se nas escolas e no sistema educativo, condicionando o desenrolar do ano lectivo e as metas definidas para o mesmo: combater os níveis de abandono e insucesso escolar e arrancar rumo a uma educação de qualidade. Se é verdade que estamos mergulhados numa grave crise financeira, é igualmente verdade que sem uma visão estratégica, que entenda que sem uma escola pública de qualidade que continue a assegurar o acesso universal para todos, estamos a comprometer não só o progresso civilizacional, como o futuro deste país.
Marília Azevedo