1 - Era ainda adolescente quando aprendi uma das duas únicas palavras de polaco que ainda hoje consigo identificar. A primeira tinha sido 'koniec', que quer dizer 'fim' e encerrava os filmes de animação do Vasco Granja, no tempo da televisão a preto e branco. A segunda, mais importante, foi 'solidarnosc', solidariedade, que sempre associei a bandeiras vermelhas e brancas, ao bigode do Lech Walesa e, sobretudo, a revolução e coragem. Muita coragem, mesmo. Os trabalhadores polacos dos estaleiros de Gdansk foram um símbolo da luta dos povos contra as ditaduras e os modelos políticos que transformam as pessoas em números e em elementos secundários.

No último fim-de-semana, no intervalo de dezenas de notícias negativas, com a Madeira como triste protagonista, vi uma pequena reportagem que, pelo menos para mim, é um sinal de esperança. Em Wroclaw, onde estavam reunidos os ministros da UE, aquele grande grupo de incompetentes que continuam a fingir que percebem alguma coisa do que se está a passar, voltaram a aparecer as bandeiras vermelhas e brancas.

Com mais de 30 anos em cima, os mesmos homens entroncados, de bigode farto agora grisalho, marcharam pelas ruas, acompanhados por outros sindicalistas europeus. Protestaram, exigiram uma mudança no rumo de destruição que as teorias económicas liberais traçaram. Podem não ter sido ouvidos por muitos dos que deveriam estar atentos ao povo que os elegeu, mas deixaram a certeza de que ainda sabem como lutar contra as ditaduras.

2 - No mesmo fim-de-semana vi o reverso da moeda. Num inquérito, feito por uma televisão nas ruas do Funchal, uma jovem, quando confrontada com a situação das finanças da Região, recitou a cartilha do poder que conduziu esta terra para o estado de calamidade em que se encontra. A culpa é toda de fora, de Lisboa, nada do que foi feito cá está errado. Confesso que nunca compreendi como é possível a um jovem ser conservador, mas ainda percebo menos que seja seguidista. Por cá, as bandeiras do 'Solidarnosc' ainda não chegaram às ruas.