Leitora identificada ...Só em Agosto realizaram-se cerca de 80 festas à volta do religioso - são sobretudo as Festas do Senhor e as de Nossa Senhora. À Senhora do Monte, os madeirenses têm um carinho especial. E, como sempre, no dia 15 de Agosto estava lá tudo: Igreja, Governo e Povo. Todos a agradecer, a pedir e a festejar. O "UI" aproveitou também para se mostrar tal qual ele é - VERGONHOSO. Na transmissão da missa do Monte pela RTP-M, o padre David Quintal lembrou que estamos a iniciar as comemorações dos 500 anos da Diocese do Funchal. Sem saber qual o programa destas comemorações, sem dúvida, muito importantes, quero acreditar que não serão mais uma forma para ofuscar a realidade diocesana mas, uma óptima oportunidade de analisar as causas e encontrar soluções concretas para alguns dos problemas desta diocese. Ou seja, que algo, se faça e fique para o futuro, além do brilhantismo habitual das festas. Refiro-me concretamente à realidade dos padres idosos e doentes desta diocese. Durante estes quinhentos anos, como tem a Igreja lidado com esta situação? Há alguns anos atrás uma família que tinha um padre tinha também uma irmã ou uma prima que ficava a viver com ele e o ajudava; outros havia que tinham uma empregada de quem muitas vezes "se falava". Hoje as coisas não são mais assim. E, mesmo nesses casos, os cuidadores envelheciam ao mesmo tempo que os padres sendo muito precários os cuidados prestados. Alguns de nós ainda nos lembramos do caso de um ilustre padre desta Diocese que em meados dos anos 90 deu entrada no serviço de urgência do então hospital da Cruz de Carvalho, sendo transferido para o hospital dos Marmeleiros onde ficou numa cama no corredor até que alguém o reconheceu. Não é que ele devesse ser melhor tratado que as outras pessoas mas porque esta situação de anonimato entristece e envergonha a diocese que o referido padre tão dignamente servira. Infelizmente este não foi caso único e ainda hoje a "tristeza" se repete. Continuam os padres desta diocese, cada um para seu lado, sozinhos ou internados num Lar, se não tiverem por perto um familiar ou um amigo que os acompanhe na doença ou na velhice. Apela-se às famílias para cuidarem dos seus familiares até ao fim dos seus dias, com dignidade. Nobre gesto, o de cuidar! Mas, os que para servir a Igreja não podem constituir família, por quem serão cuidados?! Refiro-me aos padres diocesanos, porque, nas congregações (tanto masculinas como femininas), este problema não existe pois têm e muito bem, locais onde ficar acompanhados até ao fim dos seus dias. Assim, questiono, para quando uma "Estrutura", um "Local", uma "Casa" (se calhar até já existe e seria fácil adaptar e abrir as portas) onde os padres, quando necessitarem, possam estar, se assim o entenderem, a tempo inteiro ou parcial, com os seus colegas, entre iguais, acompanhados e cuidados com a dignidade que todo o ser humano merece? Não se pode pregar solidariedade, justiça e dignidade, para no fim da vida, por omissão, tudo isso nos ser negado. Os padres novos de hoje serão os velhos de amanhã. Os de ontem já conhecem o sabor amargo do isolamento e da solidão. Todos sabemos que há dioceses onde este problema há muito foi resolvido e bem. Acredito que nas comemorações dos 500 anos da Diocese, esta realidade seja alvo de profunda alteração e os nossos padres diocesanos possam contar com um futuro mais digno.