Crise e adaptação são palavras e conceitos que deveriam andar juntos numa permanência que, de algum modo, ajudaria a olhar para cada uma delas, em separado, de outros modos. Individualmente, e por muito que os dicionários proponham, cada uma destas palavras não resiste à vulnerabilidade que provocam sobre o utilizador, sobre quem, afinal, pairam e descarregam toda a sua carga de ferocidade e infelicidade. Nem mesmo os manuais mais vanguardistas (que na prática não passam de leitura original e antiga, etimológica), salvam a desgraça e instabilidade associadas à crise ou ao desconforto da adaptação. Crise, só por si, é instabilidade, mudança, que, independentemente da origem dos vectores determinantes, sujeita os que atinge, a perdas, danos e outras situações indesejadas. Daí a necessidade de adaptação, adaptação às novas circunstâncias, limitações ou mesmo necessidade de empreender uma marcha em busca de novos locais ou situações que ofereçam maior estabilidade. No entanto, a adaptação pode deixar de ser apenas um mecanismo de reacção. Com tempo e informação suficiente, adaptação é antes uma estratégia, uma linha de orientação que identifica antecipadamente a crise e que, conhecendo-a, adopta medidas atempadas e adequadas capazes de transformar a crise em anuncio tenebroso de tempestade que, depois de passar, não passou de uma mera situação de mau tempo, um inverno, com a sua escuridão, dias curtos, frio e ventos mas, compreensível, tolerável e, no extremo, até apreciado. Adaptação não é correr à frente da crise após a sua aparição ou anúncio. Adaptação é uma atenção especial e permanente suportada por informação, sólida, diversificada e tratada de modo participado e responsável. Mas não basta ficar em casa a recolher a informação filtrada por outros ou a descarregar toneladas de memória pela banda larga, cuja maior parte não passa de ruído imperceptível ou mesmo silêncio, vazio e inutilizável. Adaptação é, em última análise, a capacidade de prever e de dotar os sistemas de flexibilidade orgânica e funcional capaz de lhes aumentar a resiliência e, consequentemente, submetidos a estados de crise, melhorando a capacidade de resistência e progresso. Há quem chame sustentabilidade, a esta capacidade de resistir e evoluir. Porque, afinal, sustentabilidade é isso mesmo, é a capacidade de aguentar a crise, seleccionando as jangadas que se deixarão a flutuar nas águas turbulentas enquanto não se consegue voltar a navegar nos belos navios de cruzeiro que tão bonitos ficam em dias de mar calmo e azul. E todos nós sabemos que esses dias existem e que daqui a mais algumas rotações deste pequeno planeta em crise, aí estarão de novo, antes de novas e piores crises, no eterno retorno que confunde a curta memória dos homens e que gera os mitos, os heróis e os vilões da nossa história.
António Domingos Abreu