É o velho truque de sempre: quando se fala de alhos, o homem vai buscar bugalhos. E assim deixa esbugalhados quase todos os outros. Quando a imagem da Madeira é a pior desde que me lembro, quando as finanças da Região estão num caos total, quando a governação dá sinais evidentes de um rotundo falhanço, quando aumenta o número de desempregados e de pobres, quando baixam os rendimentos, quando a crise é coisa séria e faz-se sentir logo na primeira metade de cada mês, o presidente do Governo fala da Revisão Constitucional. E faz disso um cavalo de batalha eleitoral. O povo, que se habituou a pisar alcatrão quente em vésperas de eleições, aplaude. A esmagadora maioria não sabe de que fala Jardim quando fala de Revisão Constitucional. Desconfio que nem o próprio sabe muito bem. O que sabe, e isso sabe muito bem, é tentar desviar o tema principal para o acessório. Recentemente, a troika - que de Jardim apenas sabe que foi um mau gestor da coisa pública -, revelou números e o presidente disse que era manobra da maçonaria e da Internacional Socialista. Como se a esmagadora maioria do eleitorado soubesse lá o que isso é. Aliás, mais uma vez desconfio que nem o presidente saberá ao certo. Mas deu jeito para evitar falar do que é mesmo importante. Ontem, quando se soube que um antigo ministro das Finanças disse em público que Jardim devia estar fora do Governo há vinte anos se se cumprisse uma lei de responsabilização dos políticos, o presidente do Governo Regional chamou Silva Lopes de incompetente e acenou com a Revisão Constitucional. Como se isso fosse prioritário. Experimente o líder madeirense falar de Revisão Constitucional aos trabalhadores das empresas que vão despedir por não receberem do Governo. Experimente falar de artigos constitucionais a pessoas que não sabem como esticar o ordenado para chegar ao fim do mês. Tente falar da Internacional Socialista a quem acabou de tirar um curso e não tem as menores perspectivas de emprego. Tente. Mas faça isso olhos nos olhos e sem a música dos comícios. Faça isso sem a turma que o acompanha, sem a banda de música nem a espetada e nem o palco. Desça à terra, que é tempo de arrepiar caminho. Ainda ontem à noite, no calor do comício, Jardim pediu uma nova revolução. Um 26 de Abril. Esta ideia tem tudo para fazer caminho. Sobretudo se à perspectiva de uma revolução se associar a Madeira e se não for apenas uma farpa para atirar a Lisboa e, mais uma vez, desviar atenções. Hoje, quando ler o DIÁRIO que diz não ler e onde proíbe o PSD de escrever, adivinha-se novo ataque. Para longe, como sempre. Além do DIÁRIO, talvez culpe a trilateral, o Obama ou uma internacional-qualquer-coisa. Vai tentar novamente o salto em frente. Mesmo que à frente esteja o abismo. Aproveito este espaço para fazer um apelo público: alguém que tenha confiança com o presidente do Governo que faça o favor de lhe fazer ver que estamos a andar para trás. Que esta política de endividamento está a hipotecar a Autonomia. Que já voltámos ao tempo de ir a Lisboa prestar contas. Que vamos passar a receber o que o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu disserem ao ministro das Finanças de Portugal para nos dar. Que o poder da Região Autónoma da Madeira está cada vez mais parecido com o de uma eventual junta de freguesia da Madeira. E digam-lhe também que estamos a ser ridicularizados todos os dias. Que somos motivos de gozo nacional e que isso se deve aos buracos financeiros nas nossas contas públicas e às suas contundentes declarações. Já agora, se não for pedir muito, digam-lhe que já passou o seu tempo. Que foi tão importante nas conquistas autonómicas e na construção da Madeira Nova, como é agora responsável por hipotecar essa mesma Autonomia. Que está a estragar tudo o que de bom - e foi muito! - fez pela Madeira nestes 35 anos.