Relembremos uma das poucas vezes em que me dirigi nominalmente ao Presidente do Governo Regional. Uma carta aberta do início de 2005, publicada no DN. Há mais de seis anos… "O cidadão Alberto João Cardoso Gonçalves Jardim tem qualidades e defeitos. A mim cabe-me relevar os seus defeitos, inúmeros defeitos. À História caberá julgá-lo e determinar o lugar que ele deve ocupar. (…) o julgamento que dele se fará no futuro será substancialmente diverso daquele que Jardim espera. Porque quando se contar toda a história destes trinta anos e dos meandros do poder político e financeiro... para além das "obras" ficarão também os erros e os crimes políticos! Primeiro defeito grave, muito grave: Jardim lida mal com a verdade, acha que os factos são apenas constrangimentos... insignificantes. (…) essa é a atitude típica do poder absoluto que assume a possibilidade de gerar factos de acordo com a conveniência do poder. Inventam-se adversários (como o DN) ou inimigos externos (Lisboa) e cria-se uma "verdade autêntica" e um "pensamento único" sobre os interesses da Madeira que ele próprio Jardim e o seu partido representam, sendo dever de todos os cidadãos e organizações seguir fielmente a verdade oficial. Quem sair da linha oficial é traidor, colaboracionista, vendido, não "ama a Madeira"! (…) A fuga ao debate - sinal de cobardia e insegurança - e a distorção das posições dos adversários fazem parte desta estratégia. Exemplo claro deu-se na recente troca de cartas em público comigo. À minha carta aberta no DN, Jardim "respondeu" com outra carta no JM. Ou melhor, face a argumentos (contestáveis certamente) "respondeu" com um ataque pessoal, com insultos e com falsidades - com as "verdades" que o regime entende dever forjar ou moldar. Eu disse: que "por detrás da fachada existe uma realidade de sofrimento e baixa qualidade de vida" no Funchal e na Região; que os indicadores de desenvolvimento social e humano da Região são desfavoráveis; que Jardim escondeu o Estudo que deveria ter determinado a posição negocial da Região e do país para o novo quadro comunitário daí decorrendo uma perda de 500 milhões de Euros; que os resultados ao nível da Educação na Região são uma vergonha para quem nos governa há trinta anos; que o discurso de Jardim é xenófobo e é insultuoso para os opositores mas também para as instituições do Portugal Democrático; que o endividamento da Região será penoso para as gerações futuras e que o esbanjamento e utilizações dos dinheiros públicos por Jardim são intoleráveis numa sociedade civilizada... Ao que Jardim respondeu: é um ressabiado, um ex-comunista, um vira-casaca, tem responsabilidades na descolonização e nas nacionalizações, pactuou com "os saneamentos, perseguições e prisões arbitrárias"... Nem um só contra-argumento e tudo falsidades com que não perco um minuto a contestar. Calúnia pura. Delírio. A única constatação que merece ser feita é que nos tempos em que Jardim elogiava o salazarismo e exaltava a colonização eu militava em movimentos de oposição democrática, com graves riscos para a minha continuidade na universidade. Mas Jardim titula o seu artigo de "temo pela sua saúde" jogando com ambiguidade numa expressão intimidatória, ao mesmo tempo que me imputa problemas psicológicos mal resolvidos. Cuide de si, Jardim, porque eu estou bem comigo próprio e não sou dado a temores! Vejo que a sua passagem pela "acção psicológica" militar deixou-lhe marcas... Defeito ainda mais grave: Jardim roubou-nos as liberdades de Abril. Pela coacção "flamista" e depois pela chantagem de uma sociedade controlada e anestesiada (pelos empregos públicos, pelo investimento público, pelos subsídios...) e pela aniquilação sistemática dos adversários, Jardim não nos permitiu o gozo das liberdades, da expressão livre, do debate de ideias. Dir-se-á que trouxe desenvolvimento, visível nas acessibilidades e no parque habitacional. Mas não trouxe o progresso económico, social e humano que só as liberdades democráticas permitem. Nem trouxe sustentabilidade, como o futuro demonstrará. E deixará uma herança financeira penosa com um endividamento gigantesco. Acuso-o, pois, de cultivar estes defeitos (entre muitos outros) nos limites do intolerável. De manipular e perseguir. De coagir. De irresponsabilidade na gestão da "coisa pública"(…) De falta de decência. De não prestigiar a Madeira e os madeirenses. De não estar à altura dos novos tempos. (…)"

Maximiano Martins