Portugal propõe-se corrigir, em dois ou três anos, os erros de três décadas. Encontramo-nos em profunda expectativa com receio daquilo que ai vem, acreditando ser possível e que pode valer a pena o esforço exigido mas há que querer mais que isso. Mas que esforço é esse que nos desafia em 2012 e 2013? É aquele que decorre de um corte na despesa do Estado, no valor total estimado, de 8.579 milhões (M) de euros somado ao aumento da receita do Estado de cerca de 3.415 milhões de euros. Em comum um aspecto: é sempre o contribuinte a garantia do sucesso! No lado dos cortes, identificam-se 1.372M€ na saúde, 1.368M€ no investimento, 1.290M€ no congelamento das pensões, 1.202M€ na reforma da Administração Pública, 688M€ no congelamento dos salários, 688M€ na redução de contratos, 514M€ na rede escolar, 344M€ nos subsídios, 310M€ na poupança e redução de prestações sociais, 290M€ no corte das pensões acima de 1.500 euros, 170M€ no sector empresarial do Estado e 344M€ noutras despesas. O resto do sacrifício é conseguido com 1.189M€ no aumento do IVA, 1.032M€ de benefícios fiscais (IRS e IRC) que desaparecerão, 344M€ pelo aumento de outros impostos sobre o consumo, 344M€ através do agravamento do IMI, 170M€ resultante da sobretaxa do IRS (Subsídio de Natal), outros 170M€ no combate à fraude e evasão fiscais (estes são bem-vindos) e mais 166M€ através de outras receitas, ou seja, mais contribuições dos portugueses. Esta é a cura! Mas Portugal corre o risco de se "safar" da doença e morrer da cura? Sim, claro que sim, basta que se fique por todos estes sacrifícios sem agir no sentido de compensa-los, e fundamentalmente aos Portugueses, com verdadeiros estímulos à nossa economia, ao emprego, ao investimento, à poupança, à actividade empresarial e à felicidade de um povo oprimido por este compromisso. Não tardará muito e essa compensação será, naturalmente, exigida pela própria evolução do país e nem tanto por este ou por aquele sacrificado. Será o todo que estará, de novo, no centro mas, dessa vez, a reclamar mais e melhor em troca de tamanho esforço. Ao Estado compete a exigência mas também o exemplo, e em matéria de estímulos bastaria, para começar, que pagasse, desde já, tudo o que deve aos fornecedores e que cumprisse, de hoje em diante, os prazos de crédito que ele próprio contrata. Já seria uma grande ajuda, uma grande lufada de ar fresco para esta economia sufocada e ligada à máquina a quem o Estado confia a recuperação do país.
Eduardo Jesus - Economista