A liberdade religiosa - que inclui o direito a não ter qualquer religião, como é o meu caso - é uma das conquistas da democracia e um dos factores de diferenciação positiva das socieades desenvolvidas. Do mesmo modo, os estados laicos são a única forma democrática de tratar, por igual, todos os cidadãos, independentemente das suas crenças. Portugal, felizmente, evoluiu para este modelo superior de construção do Estado, depois da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Evoluiu, mas ainda há quem teime em manter restos de um tempo negro em que uma religião era imposta e discriminados aqueles que se atreviam a não seguir o 'catecismo' oficial. Um tempo em que o regime e a Igreja Católica estavam fortemente ligados e em que um apoiava o outro, como forma de sobrevivência mútua.

Só assim se compreendem discursos disparatados contra o laicismo do Estado e a manutenção de apoios a infra-estruturas que, como acontece com outras religiões, deveriam ser suportadas por quem as constrói. Por muito louvável e corajoso que seja o papel social da Igreja Católica, largamente maioritária em Portugal e na Madeira em particular, não é compreensível que se gastem milhões a apoiar a construção de templos. Sobretudo num tempo em que falta dinheiro para tudo, principalmente para pagar dívidas.

A Igreja de Santa Cecília até nem foi muito cara, se compararmos com outras despesas. Terá custado quatro milhões de euros, uma verba que dava, por exemplo, para um ano de Jornal da Madeira. Duas entidades com um sócio em comum, a Diocese do Funchal, que tarda em assumir responsabilidades num órgão de comunicação sobre o qual teria tutela editorial.

Os templos, das capelas às catedrais, sinagogas, mesquitas e outros, são os edifícios mais imponentes e marcantes que o Homem construiu. Mas não é por isso que se admite uma inversão de prioridades tão grande. Quando nesta Região há pobreza, fome e exclusão, quando a muitos começam a faltar os mais elementares meios de sobrevivência, o papel de qualquer Igreja seria estar com os mais fracos a ajudá-los. Mesmo que para isso tivesse de continuar a celebrar missas numa garagem.