Marques Mendes voltou a apresentar na TVI uma lista com possíveis cortes e fusões para "emagrecer o monstro”, ou seja, para pôr a poderosa mas pesada máquina do Estado na linha. Mais uma vez foi entusiasmante perceber a vontade teórica social-democrata na recomendável dieta, mesmo que onerosa em termos eleitorais.

O ex-líder do PSD fez trabalho de casa e concluiu haver 60 serviços em vários Ministérios “que podem, pura e simplesmente, acabar”. Ficou-se pelos ministérios. Foi pena. Se entrasse na orgânica de secretarias e direcções regionais, se percorresse os corredores de serviços, institutos e empresas públicas madeirenses descobriria um manancial capaz de garantir um grande momento televisivo.

Gorduras não faltam. Portugal conhece bem e nem é preciso gastar dinheiro em análises. Aliás, vários meios de comunicação repetiram no último mês de Agosto que o jardinismo assenta em 28 direcções regionais, 5 institutos e 33 empresas falidas. Na prática, recuperaram um trabalho do DIÁRIO, da autoria do jornalista Jorge Freitas Sousa, publicado em Outubro passado, no qual dava conta que o Governo Regional, para além de ter um presidente, um vice-presidente e sete secretários regionais, tutelava directamente mais 61 entidades, entre direcções regionais, institutos, sociedades de desenvolvimento e unidades equiparadas a direcções.

A máquina é infernal, quase o dobro da açoriana. Com multiplicações desnecessárias, com serviços de apoio que nada fazem, com adjuntos aos montes, gabinetes de imagem para promoção de banalidades, assistentes operacionais e os outros provavelmente de baixa, carros de fartura, consultores de coisa nenhuma e muitas divisões, todas elas com chefes. Excessos questionáveis por darem jeito apenas a quem lá está e não serem decisivos na qualidade de vida de todos os madeirenses. Na era do aperto fará sentido ter consultores, técnicos e gabinetes de informática em todas os serviços do Governo que rivalizam com a direcção regional de Informática? A denominada “gestão, arquitectura e desenvolvimento de infra-estruturas tecnológicas e sistemas de informação” é assim tão complexa que exija tanto ‘job’? Tem alguma lógica haver apoios jurídicos ‘à la carte’, ao lado de cada uma das secretárias nos diversos gabinetes e, como se não bastassem, ainda haver uma tendência de recurso a serviços externos da mesma índole, para satisfação dos escritórios de advogados? E qual é a actividade exaustiva de um Fundo de Seguro de Colheitas se as que existem nem dão para as encomendas? Faz sentido o Porto Santo ter uma direcção de administração pública? Para que precisamos de um ‘Jornal Oficial’ só na prática há três? E por que motivo a Informação Geográfica tem estatuto de direcção? Qual é a razão para termos um Centro de Estudos de História do Atlântico, cuja obra maior é fazer o histórico de alegados 500 anos de roubo da nação à ilha, se há gente no governo com mais jeito para as contas?...

Desafio-vos a investigar as orgânicas das diversas estruturas governativas. Escolhi uma ao acaso e constatei que na Direcção Regional de Trabalho há: Subdirecção Regional do Trabalho; Serviços de apoio; Direcção de Serviços Laborais (DSL); Divisão de Regulamentação e Relações Colectivas de Trabalho; Divisão de Recursos e Apreciação das Condições de Trabalho; Direcção de Serviços de Segurança e Saúde Ocupacional; Divisão de Higiene e Segurança no Trabalho; Centro de Medicina do Trabalho; Direcção de Serviços de Estatística do Trabalho; Divisão de Inquéritos e Fontes Administrativas; Direcção de Serviços de Igualdade, Assuntos Comunitários Laborais e Documentação; Divisão Para a Igualdade e Documentação..., havendo ainda a registar que por exemplo a DSL integra a Divisão de Regulamentação e Relações Colectivas de Trabalho; a Divisão de Recursos e Apreciação das Condições de Trabalho e o Gabinete Técnico-Jurídico/Serviço Informativo Laboral. Notável!

Imprescindível neste processo é o CARAM - Centro de Abate da Região Autónoma da Madeira. Mas depois da dieta, faz todo o sentido que seja extinto. Com o emagrecimento do monstro deixa de haver crias e pouco mais haverá para abater. Inquestionável será também o Centro das Comunidades Madeirenses. Bem mais do que o Instituto do Emprego. Com a nova vaga de emigração, devido ao desemprego crescente, e com ameaça de duplicação, por mais que já esteja escrito pelo secretário da tutela que esta é mais uma mentira de quem fala verdade, a diáspora voltará a ser decisiva.

Se Marques Mendes quisesse brilhava no ‘prime time’ televisivo. E de certeza que diria que “é preciso cuidar destas coisas porque o dinheiro é pouco”.