Em 1989, a Europa conhecia uma nova primavera quando se derrubava o "Muro de Berlim". Na altura, eu era apenas um "mijinhas", porém, continente e certeiro no penico, que adorava ouvir e ver Sandra Ann Lauer a cantar, alguns dos seus êxitos intemporais da mágica década. Esses tempos de mudança e de refundadas esperanças, pela quebra do gelo da "Guerra Fria", foi maquinado por líderes e estadistas, dignos desse nome. Coisa rara, neste tempo de razia e de mediocridade política. Angela Merkel nascida e criada na estatizada Alemanha Oriental, é hoje o sinónimo da hesitante liderança europeia, a que todos lhe chamam reverencialmente de "senhora". É ela sobretudo, quem dita a medida da cega austeridade, das pequenas economias periféricas da Europa. É ela que nos acusa de termos muitas férias e feriados, mas que acaba traída pela simples comparação. A Europa de Merkel, já não é apenas o muro escancarado de Berlim. É todo um conjunto de barreiras que a Alemanha tem construído em torno de si própria, secundada por outros motores europeus com pés de barro, jogando ao lixo, os ideais de solidariedade e unidade em torno de um projecto comum, que pretensamente esbateriam as assimetrias do norte, centro e sul do "Velho Continente". Aliás, permissas que a Alemanha tanto precisou, para se reerguer das feridas de Hitler. Merkel, formatada pela ex-RDA herdou uma primavera de Kohl, mas avança com a sua hedionda marca, como um inverno tenebroso sobre toda a Europa. Para isto, mais valia ela não ter transposto o derrubado muro para Berlim ocidental, e lá ter continuado em Leipzig na sua química, criando porventura fórmulas mais robustas para fazer "estadistas proveta" - aliás -, aquilo que ela é: um sofrível espécime. A austeridade reinante e exigida, não é democrática, nem solidária ou proporcional. Também no nosso Portugal, adensam-se clivagens, e engrandecem-se as assimetrias, contrariando tudo o que fora prometido. O trabalho é descapitalizado, e o capital é poupado. Ingredientes explosivos para uma detonação social, enquanto as margens de excluídos e precários engrossam a urgência da caridade assistencialista, em prejuízo duma cidadania adormecida, desprovida de direitos, tão ao gosto e medida, da nossa nacional coligação de estilo "gourmet". À distância de 1989, estes tempos parecem perdidos. Eu disse, parecem...Pois o "acordar" pode ser eruptivo. Só pode e só deve, pois as férias terminarão em breve. Com dificuldades crescentes.
Donato Macedo, Licenciado CCO