Tenho para mim que o principal problema da atual estrutura de poder e de governação é simplesmente a falta de visão estratégica. Temos uma estrutura política demasiado centrada em si própria que não promove o mérito nem a inovação social. Sem pessoas capazes e com visão estratégica ficamos irremediavelmente entregues aos interesses corporativos. Veja-se o exemplo da Apple conhecida empresa de alta tecnologia. Ao contrário da Microsoft que dominou o mercado nos últimos 30 anos a Apple apostou sempre numa estratégia de nicho assente em produtos muito fáceis de utilizar e com design apelativo. Com o regresso de Steve Jobs como CEO em meados dos anos 90 retomou a visão original e em apenas 15 anos ultrapassou a Microsoft e tornou-se este mês na empresa mais valiosa do mundo em bolsa ultrapassando a Exxon. Por incrível que pareça a Apple hoje tem mais liquidez do que o próprio governo dos EUA! O que é que distingue a Apple das outras empresas? Visão estratégica de longo prazo, uma visão integrada que gera inovações tecnológicas e de gestão. Um exemplo que costumo dar aos meus alunos é o da linha de produtos. A Apple tem infinitamente muito menos produtos que qualquer dos seus competidores: 4 modelos de computadores pessoais e leitores de MP3, 1 modelo de telefone móvel e outro de tablet. Esta simplicidade torna a escolha do cliente mais simples, o marketing mais direto e tem como consequência custos operacionais muito inferiores (menos componentes, menos stocks, etc.). Enquanto todas as outras empresas tentam copiar o iPhone e o iPad criando n modelos para ver se "acertam", a Apple continua a sua estratégia de sucesso e acaba de nomear CEO Tim Cook precisamente o homem que liderou esta inovação na linha de produção. O que é que tudo isto tem a ver com a crise e Portugal? Como já escrevi a crise é uma oportunidade para podermos mudar, parte dessa mudança já está a acontecer por via das reformas impostas pela troika. Mas o que a troika nos definiu foram objectivos financeiros: onde cortar na despesa e como aumentar a receita. O novo governo foi formado debaixo da lógica da austeridade com as ideias peregrinas que a crise se resolve reduzindo o número de ministérios, viajando em classe económica e publicando listas de nomeações dos "boys" na internet. Os jornais divertem-se a publicar análises às declarações de rendimentos dos ministros, enquanto todos nós fazemos apostas sobre qual deles vai conseguir fazer melhor figura como quem analisa reforços de equipas de futebol. Mas a receita da troika não define um estratégia de longo prazo. É óbvio que temos que reduzir despesas (mais do que aumentar receitas) mas isso tem que ser feito com criatividade, inovação e critério estratégico para poder ser sustentável e dar frutos no longo prazo. Esta visão estratégica não é diminuir a despesa e o deficit, nem é sequer aumentar o crescimento económico e o emprego. Da mesma forma que a visão da Apple não era ter a maior capitalização bolsista ou o melhor fluxo de caixa. Portugal é um pais europeu médio, com uma história e um património cultural riquíssimos e disseminados pelos quatro cantos do mundo. Temos uma situação geográfica privilegiada como plataforma Atlântica. Somos por natureza cosmopolitas, criativos e abertos à inovação. Não temos grandes recursos naturais para além do bom clima e da paisagem. Será assim tão difícil definir uma visão estratégica para este país? Definida essa visão estratégica será tão complicado fixar onde é que devemos investir os nossos recursos (que não em autoestradas, rotundas, pontes, TGVs e aeroportos)? Dizem-me que não temos tempo para estes exercícios, pois eu acho que aceitar isso é precisamente perder a oportunidade que a crise nos proporcionou. Dou um exemplo que gostaria de desenvolver noutra oportunidade. E se em vez de ministérios funcionais como Economia, Finanças, Educação, Defesa, etc. tivéssemos ministérios orientados para os desafios estratégicos de futuro, por exemplo, Sustentabilidade, Globalização, Património, Conhecimento, Bem Estar e Segurança? Imaginem que os ministros em vez de chefiarem megaestruturas burocráticas como o surreal "Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território" dirigem unidades de missão que para além de um gabinete de coordenação teriam que coordenar os atuais organismo do estado para cumprirem com os seus objectivos. Imaginem que em vez de decidirem fusões e extinções os ministros teriam um orçamento que deveriam negociar com os organismos para cumprir. Imaginem que os organismos que não fossem chamados a contribuir para uma destas missões seriam extintos, não porque é necessário cortar despesa ou mostrar serviço mas porque são realmente desnecessários e supérfluos ou simplesmente inoperantes. Imaginem que nos organismos as chefias e promoções eram exclusivamente por mérito sem intervenção dos ministérios que seriam os únicos de nomeação e legitimação política (com ou sem publicação na internet). Será este devaneio de verão utópico e impossível de implementar? Pois bem é assim que a maior parte das empresas atuais de alta tecnologia estão organizadas, numa estrutura matricial em que as funções (marketing, contabilidade, comercial, etc.) são coordenadas por unidades de missão orientadas estrategicamente ao mercado. Devolvo a questão, será que a forma como estamos a fingir há mais de 30 anos que reformamos o estado tem alguma orientação estratégica ou produziu algum resultado? Assisto com preocupação a tudo o que está a acontecer, não porque duvide da boa vontade dos protagonistas, mas porque não acredito em reformas "de harmónio". Preferia mil vezes que Nuno Crato realmente implodisse o Ministério da Educação! Como dizia Einstein "loucura é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes". Boas férias!
Nuno Nunes