Há alguns anos, numa daquelas reportagens que os Telejornais utilizam amiúde para "encher chouriços", um professor da "Metrópole" orgulhava-se de ter organizado uma visita de estudo, com o objectivo de dar a conhecer aos seus educandos o último dragoeiro existente em Portugal. Lembro-me que na altura muitos conterrâneos comentaram esta "notícia" entre sorrisos, mas eu não achei graça nenhuma. Também não ri quando um continental em férias me tentou convencer com veemência que a banana dos Açores era a mais vendida do País, e que até era bem melhor que a nossa… E muitos outros exemplos poderia dar, de situações semelhantes em que aquilo que orgulhosamente chamamos nosso é apresentado como sendo de outrem, o que vulgarmente se chama "cumprimentar com o chapéu alheio". Mas "chapelada" como esta nunca tinha visto: então não é que o nosso espada-preto poderá ser o primeiro peixe a ser certificado em Portugal, e logo com a designação de peixe espada-preto de Sesimbra!!! Sim, esse mesmo, o Aphanopus Carbo Lowe, o delicioso peixe batipelágico da família Trichiuridaeque que faz parte dos hábitos alimentares dos madeirenses há mais de 150 anos, está prestes a "pertencer" por direito à tradição gastronómica de outra terra e de outras gentes, sem que nada seja feito em sua defesa. Basta fazer alguma pesquisa na Internet para nos apercebermos que o "lobby" sesimbrense está a fazer um bom trabalho de casa: o próprio sítio da Câmara Municipal (www.cm-sesimbra.pt) faz questão de explicar que o processo de registo de Identificação Geográfica "tem como objectivo demonstrar que um produto originário de uma determinada região possui características próprias devido à sua origem que o tornam distinto de todos os outros. A certificação será feita por indicação geográfica e, nestes casos, é o nome de uma região ou local - até mesmo de um país - que serve para designar um produto ou um género alimentar. A pesca do Peixe-espada preto de Sesimbra tem mais de 20 anos de história. É comercializado para o mercado nacional inteiro, em posta ou em filetes e a sua transformação é feita localmente. Na gastronomia local este peixe é muito utilizado e os pratos mais tradicionais são os filetes ou peixe com ervilhas." Pronto, não leva banana nem maracujá, mas bastaram meros vinte anos para lhe chamarem tradição, e ainda aqui vamos, porque infelizmente há mais. Sabia o leitor que há já seis anos é organizada a Quinzena Gastronómica do Peixe-Espada-Preto, sendo que no corrente ano participaram mais de cinquenta restaurantes, destacando-se a procura pela versão grelhada e em rolinhos com camarão? Tudo isto acompanhado com workshops de confecção e passatempos na Internet. Mas ainda há mais. Com inusitada pompa foi recentemente lançada no mercado a Conserva de Peixe-espada-preto em Azeite, uma "iguaria de Sesimbra" tida como um produto único a nível nacional. Ok, não leva banana nem maracujá, mas já é uma "iguaria única", e não é de cá! Pasme-se, até foi criado um sítio específico - www.peixeespadapreto.sesimbra.pt, onde é possível consultar informações sobre todas as edições da quinzena gastronómica, e ainda sobre a pesca, transformação e confecção da espécie. Os senhores da empresa Artesanal Pesca, criada em 1986, também se vangloriam nas auto-estradas da informação, e de forma nada artesanal: os seus 17 barcos e 300 pescadores são responsáveis por 95 % da captura efectuada em território continental. Dados de 2009 apontam para 2500 toneladas de espada-preto, com um preço médio de comercialização em lota de €2,60/Kg. A partir de 2008 terão mesmo ultrapassado a Região Autónoma da Madeira, fazendo de Sesimbra o primeiro porto nacional na captura e comercialização desta espécie. Não tardará a chegar o dia em que vamos comprar nos supermercados da Região os filetezinhos de espada-preto congelado de Sesimbra, e prepará-los em nossas casas seguindo a habitual receita inscrita no verso da embalagem. E não vai ser com banana nem com maracujá, vai ser com ervilhas…

Raúl Ribeiro