Esta semana descobri um reduto onde a crise não entra. É só pura felicidade e muita festa. Descobri também que os arraiais já não são o que eram. E, surpresa, são muito melhores do que a minha memória se recordava.
Num momento em que o governo da República continua a exercitar uma política de Robin dos Bosques às avessas, onde é permitido tirar aos pobres, mas muito difícil pedir seja o que for ao ricos, resolvi fazer de conta que nada disto é real e que o meu país é, na verdade, um local muito mais feliz e justo. Nada melhor para dar consistência a esta ideia do que um arraial de Verão.
As noites são quentes, as pessoas são bonitas e bronzeadas, a música faz de banda sonora da felicidade e tudo parece estar certo e no lugar.
A Norte, no arraial de São Vicente, a crise foi banida, quem sabe se travada pelas montanhas e pelo mar de espírito selvagem. Ou então fugiu com medo da alegria pura de uma noite de Agosto.
Seja o que for, confesso que fiquei fascinada pela magia do arraial, já tão longe da memória de outros arraias, onde a infância se perdia no desejo de brinquedos pouco sofisticados, mas que brilhavam à luz de barracas cheias de sonhos. Os reco-recos, os ioiôs de farelo e folha de prata, as bonecas que nunca fechavam os olhos pintados na cara de borracha, os carros de folha cortante e ao arrepio das regras de segurança infantil, as cornetas, as pandeiretas, as bonecas de massa. Tudo abraçado com as mãos a transbordar de algodão doce e farturas.
Sim, agora que recordo, também eram felizes esses outros arraiais. Eram apenas diferentes. Não tinham artistas convidados, nem discoteca ao vivo. Tinham os Galáxia e o Vasco de bigode e casaco vermelho, a cantar os êxitos fáceis dos anos 80. Era o conjunto de ritmos modernos e a banda no coreto da igreja.
Porque o arraial para mim tinha esse pendor quase artesanal, confesso que voltei a sentir a mesma magia da barraca de brinquedos quando, passados todos os tunéis, desembarquei a norte para ouvir Rui Veloso, uma nova versão dos ABBA e depois dançar ao som das Vespas. A via profissional dos arraiais destes novos tempos deixaram-me maravilhada, depois espantada e finalmente familiarizada com uma alegria que, no fundo, tem a mesma cor de outras festas, apenas com tons e sons diferentes.
Em todas as ruelas de São Vicente, afinal o que encontramos ainda é o mesmo. A alegria simples de estar vivo, a amizade que se comemora, o amor que nasce ou se reconquista. A certeza de que só se pode amar quem ouve a mesma canção.
O arraial continua a ser essa celebração colorida da vida, do verão e da memória que se constrói. Como todas as festas, o arraial é essa paragem da realidade, mas também a certeza de que o pulsar de vida é mais forte do que todas as contrariedades. Haverá sempre um baile da paróquia para afastar essas "cinco nuvens negras" e relembrar "as regras de saber viver". As palavras não são de Rui Veloso, são de Sérgio Godinho, mas vem dar tudo ao mesmo. A música e a felicidade repõem "o sentido nos sentidos, olfactos, ouvidos" e uma alegria que resiste a tudo, até mesmo à crise mais empedernida.