Isto de escrever em tempo de férias não é fácil. Ainda mais quando o calor entorpece o raciocínio e convida à pasmaceira, injectando-nos uma boa dose de abulia que só o regresso ao trabalho consegue, a grande custo, expurgar. É, talvez por isso, que Agosto convoca reflexões de índole intimista que nada têm a ver com o estado da Nação, mas sim com o estado de cada um. O trabalho, na verdade, distrai-nos de nós próprios. Faz-nos desdramatizar o vazio que, por vezes, se instala nas nossas almas, impelindo-nos a esquecer, pacientemente, essas pequenas coisas cuja ausência não mata, mas vai moendo com vagar os nossos dias ao ponto de nos roubar a frescura e os efémeros momentos de felicidade que todos deveríamos ter, sem excepção. Essas pequenas coisas, dizia eu, têm a ver, exclusivamente, com os afectos, sobretudo com o amor, esse sentimento que pode ser tão grandioso quanto destrutivo, mas sem o qual a vida seria uma grande trampa. E lembrei-me disto, do amor, por várias razões: porque estou apaixonada, porque gosto de ver gente apaixonada, porque há dias percebi que há cada vez menos gente apaixonada. Como o percebi? Numa conversa de esplanada, entre vários amigos que, entregues à descompressão das férias e à desinibição de várias cervejas geladas, se queixavam do desamor das suas companheiras, da inexistência do olhar de cumplicidade de outros tempos, da ausência daquela carícia, da falta de paixão e de declarações arrebatadas. Elas, também presentes, reviravam os olhos com desdém, afirmando já não terem tempo - leia-se pachorra - para "essas coisas". Os miúdos, os trabalhos e não sei quantos anos de vida a dois, justificavam elas, minavam o amor de outrora, substituindo-o pelo cansaço ou, acrescentei eu, pela rudeza e pela malvadez que parecem tomar conta de muitas relações, em que ele é o insulto despropositado, ele é a ironia desmedida, ele é os gritos constantes, ele é as queixas, ele é a falta de paciência, ele é a sobrancelha sempre arqueada… enfim, ele é o inferno que deveria ser paraíso, porque, para inferno, já nos basta a vida lá fora. É um facto que, incompreensivelmente, o casamento parece transformar os amantes numa parelha de brutos que descarrega as frustrações e fracassos naquele que é presa fácil porque está mesmo ali, em casa. E fá-lo talvez porque a segurança do compromisso assumido conduz à falsa ideia de que tudo é garantido, até o amor. E o pior é que, se antes a insensibilidade era mais usual no sexo masculino, agora veste saias, tornando-se mais requintada nos golpes que desfere. É verdade, ninguém escapa a este fenómeno. Somos todos agressores e também vítimas. É um ciclo vicioso que, como ciclo vicioso que é, se alimenta a si próprio, provocando estragos que, mais cedo ou mais tarde, têm consequências. Há uns que não aguentam e batem com a porta, há outros - os mais infelizes - que se acomodam e aprendem a gerir o desamor, mantendo-se, paradoxalmente, leais a quem foi desleal ao amor que jurou um dia. E é aqui que uma união a dois, de papel passado ou não, se transforma numa via-sacra interminável que destrói por completo as ilusões que, desde crianças, alimentamos em relação ao amor. Eu mantenho as minhas, porque, idealista como sou, estou convicta de que o amor pode tudo, mesmo quando a vidinha rotineira, mais do que o casamento, nos transforma num bando de brutos e nos faz esquecer como é bom ter alguém, o tal ou a tal, que nasceu para nós. De volta à conversa da esplanada, é óbvio que não passou disso - de uma conversa de esplanada. Por momentos, eles inflamaram-se e exigiram a relação a que tinham direito enquanto elas, de lágrimas nos olhos, se disseram injustiçadas e juraram que continuavam as mesmas do início. Eu, por mim, sorri, acreditando que o amor ainda tem hipóteses nem que seja apenas em Agosto, mês quente que, talvez por isso, tem a força de nos pôr a pensar nessas coisas…
Eker Sommer