“O fim do colonizador e das ratazanas está próximo”. A declamação poderia ter saído da boca de um qualquer seguidista do regime Jardinista ou merecer o mais displicente aplauso dos pseudo-resistentes cá do burgo e a imitação infame de jovens aprendizes, convictos de que é possível crescer mijando em cima dos outros para depois exibir como troféus, a impunidade, a exaltação da prepotência e o autismo superior. A profecia, bem que poderia ter como autor um dos conhecidos escribas do regime que esbanjam caracteres roubando aos cidadãos espaços nobres de um jornal violado diariamente. Apesar de nos ser um tanto familiar, a declaração foi proferida pelo tirano Muammar Kadhafi, num qualquer ‘bunker’ em Tripoli. Num registo que nos é, infelizmente, próximo, o ditador usa a boçalidade para intimidar e manter fiéis as suas tropas, abusa da estratégia da vitimização e veste a farda de um pseudo-resistente que elege inimigos externos para atiçar guerras à medida de circunstâncias que lhe proporcionem uma boa oportunidade para sacudir para terceiros o ónus da responsabilidade por todas as atrocidades praticadas sob a sua égide.

Por cá, há também uns tipos que se declaram autonomistas mas só têm olhos para o poder e para todas as formas de o eternizar, que vêem sucessivos “ataques do exterior”, promovidos por colonialistas, fascistas, comunistas e socialistas – todos eles controlados pelo poder centralista de Lisboa. “Ataques do exterior” perpetrados por entidades que mais não fazem além de fiscalizar o normal funcionamento da vida em democracia (CNE, ERC e TC) mas que, aos olhos do senhor deste reino insular, se agudizam em vésperas de eleições regionais só para tramar o poder vigente. Por estas alturas, já se vislumbram ‘rockets’ a cruzar os céus do arquipélago e direccionados ao soberano da Quinta Vigia pelas “entidades da República”. Tudo só para infernizar a acalmia do excêntrico quotidiano insular e a paz social que reina há mais de 30 anos. A contra-ofensiva foi declarada há meia dúzia de dias pelo eterno líder madeirense que exortou à, imagine-se, “alma de resistentes” para reagir em “legítima defesa”. Dali sairão, talvez, alguns Scuds, aqueles mísseis balísticos soviéticos de curto alcance iguais aos que o regime de Kadhafi dispara no deserto para serenar os ânimos de um ou outro rebelde mais ousado.

“Há muita maneira de se defender, mas a melhor maneira é a de cobrir de ridículo o adversário; é, ainda, a de se gozar”, confessou Alberto João Jardim. Essa é a estratégia usada contra os jornalistas que colocam questões pertinentes e não se limitam ao guião oficioso ou às perguntas de circunstância que sirvam de rampa de lançamento para os tais Scuds, já gastos diga-se, que Jardim tanto preza para lançar contra o “eterno inimigo externo”, culpado por todas as barbaridades que acontecem nesta terra. Infelizmente, o episódio ocorrido com a jornalista Marta Caires não é um mero produto do acaso. O dedo em riste, a agressividade e a acusação de mal-criação sai sempre que Jardim pretende vedar o direito à informação sobre matérias incómodas. É óbvio que ele recusa responder porque tem poder para branquear factos e acontecimentos no Jornal da Madeira, fazendo publicar com todo o destaque as suas opiniões sobre assuntos que elege como determinantes, à luz de interesses político-partidários e não os da actualidade, da revelância ou da notícia, reservando-se ainda no direito de ofender, no jornal quinzenal do seu partido, todos aqueles que procuram a verdade além dos limites impostos.

Por tudo isto e mais a imunidade, até se compreende que Jardim e os seus pares não tenham qualquer pudor em insultar e expulsar jornalistas nos vários domínios onde o regime exerce poder e dependência, controlo e influência, seja na sacristia, na Quinta Vigia, no Parlamento, nas inaugurações, nos comícios ou nas conferências de imprensa. O azar é que o tais mísseis Scud de Jardim já estão como os de Kadhafi: tão podres e obsoletos que já não alcançam uma distância superior a 800 quilómetros. No máximo, os ‘raids’ aéreos da Madeira caem ali ao avistar o Cabo de São Vicente. E a Lisboa já só fazem cócegas. Por isso, esta artilharia aérea vai sendo gasta em distâncias curtas, servindo para amedrontar o povo que ousa pensar pela sua própria cabeça e para desacreditar aqueles que além de informar, têm a missão ‘ingrata’ de formar a opinião pública na Madeira, entre os quais, os jornalistas que ousam fazer perguntas que incomodam os acomodados. Quanto aos Scud do Jardinismo, eu estou como a Marta: “Estou a tremer, a tremer de medo”.