'Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada'. A frase de Edmund Burke, um deputado irlandês do século XIX, foi confirmada, das formas mais tristes, ao longo dos últimos séculos. A indiferença, a falta de coragem e o oportunismo, foram quase sempre mais fortes do que a necessidade de dizer basta e reagir. Todas as ditaduras nasceram e sobreviveram assim. Até alguém bom fazer alguma coisa. Uma revolução ou um simples par de estalos bem dados.

Vivemos tempos difíceis nesta terra, mesmo muito difíceis. Não só devido a uma crise que teima em ganhar raízes e produzir uma legião de pobres e excluídos, mas porque estamos muito perto de baixar dos limites mínimos de uma democracia.

Quando um rapazola promete 'pôr na rua' um juiz desembargador que representa a Comissão Nacional de Eleições - que por acaso até é madeirense - e ameaça usar a 'jota' como um braço-armado ou um gang de rua, o cenário já não faz rir. É perigoso.

Quando o presidente de um Governo dá o exemplo, distribui insultos e ameaças por todo o lado, sem qualquer respeito por quem é alvo das suas divagações tresloucadas, entrámos na zona de perigo.

Quando a resposta às evidências de má gestão dos dinheiros públicos, que criou um buraco de quase 300 milhões que será pago pelos contribuintes, é a teoria da perseguição, o caso assume contornos de doença.

Tudo isto e muito mais acontece perante um Governo e um partido em que ainda militam alguns que se dizem bons ou, pelo menos, diferentes do chefe. Infelizmente, nenhum é da têmpera dos que reagem e fazem alguma coisa.

Post Scriptum: Ontem, na Festa do Monte, o presidente do Governo voltou a ameaçar e a insultar mais um profissional desta casa. A jornalista reagiu, com coragem e perante o silêncio comprometido de todos os que assistiram. Senti orgulho, por várias razões.