Tem no olhar um silêncio de gato. Tenho aprendido a reconhecê-la como se descobrem primeiras escolhas do tempo da escola primária, os dias e as letras iniciais. Com o tempo. Como o tempo. Novas-amigas-íntimas, por enquanto, como hoje. Ainda agora sentimos o corpo e o coração em desalinho, a tentarem caber no lugar que lhes é dado (ela menina-alta, eu menina-mínima, a mesma carteira e o banco que não se pode mover; "uma só peça", nas suas palavras levemente contrariadas). "És o contrário de mim", disse-me por estes dias. Tem as mãos pequeninas, o pé ligeiro (e sorrimos quando me pediu que nadasse por perto porque tenho as mãos e os pés em escala desacertada com o corpo onde moro e ela sabe como o mar é largo). Tem o porte de uma árvore. Raiz, tronco, folhas. As costas alinhadas, altas, os braços longos. O gesto leve, brando, silencioso. O abraço certo. Ramo e folha, leve e firme. O olhar voa. Nem sempre plana, nem sempre pousa. Pergunta. Vê. Aprende. E sabe. Porque continua a aprender a perguntar. Entre tardes destes dias de verão perguntámo-nos - com a leveza justa da estação - porque serão os números primos "primos". E sorrimos. Acho que foi esse o dia em que nos ensinámos a tal "matéria" rara, até então quase só uma fórmula fácil para dizer o mundo. Porque olha como ave, o que nela mora não é a teoria dos números ou a lei da gravitação universal, nem a anatomia ou a arquitectura (disciplinas que conhece como bons amigos que a espaços reencontra e que reconhece). O que nela se demora é um modo de sobrevoar "quadradinhos de terra cultivados nas escarpas mais inconcebíveis" ou planar - devagar - por entre "estradas que são rampas na inclinação e são caminhos na largura". "Estranha ilha esta" (leio em "Portugal - A terra e o homem", uma antologia de David Mourão-Ferreira e Maria Alzira Seixo, de 1981, onde José Rabaça assim descreve onde nos encontramos). Há algum tempo, quase ao acaso, desenhou uma larga linha invisível com os dedos (com a leveza e a elegância que o assunto requer), a ensinar-me o que é e porque se sustém um arco. Era o arco de volta perfeita (ou de volta inteira ou de pleno centro), antigo de três séculos antes de Cristo e agora dela, por dentro da memória e do olhar, naquele gesto. Lembrámos o semicírculo inteiro, o vão, os pilares. E a pedra angular, a peça central do arco, que suporta todo o peso - na vertical - e mantém o equilíbrio. É com ela que se completa o arco e chamam-lhe chave. Está tudo certo. Então ecoou em mim esta certeza: há coisas e há pessoas que "nascem e crescem e aguentam-se, amenizando o que seria uma brutalidade impressionante. Querer viver é uma grande força". Com ela aprendo também que sim, é. ("O que lês, por ti?", perguntou-me. Estas palavras, para ti, agora que nos sabemos antigas-amigas-íntimas. Pergunto-me, com palavras do livro que agora leio, "onde pode residir a esperança?". Em ti, entre arcos.)

Diana Pimentel, Docente universitária