Eu não acredito no inferno mas por razões diferentes das razões do Dr. Jardim. Lembro-me de uma entrevista em 1996 (ano de eleições legislativas regionais) à Notícias Magazine (NM) em que dizia acreditar num "deus cósmico" "um bem absoluto" que levará "8 ou 9 milhões de anos a realizar" resultante de um "enorme avanço da ciência e da perfeição" que "pode levar ao estádio, em que a nossa mente torne a existir e o nosso ser tornar-se novamente vivo. É a ressurreição", disse. Portanto, não subscreve a imagem do paraíso com arcanjos a tocar violino, nem almas a penar nas labaredas do caldeirão com um tipo vestido de vermelho, cornos e tridente na mão, julgadas pela balança do bem e do mal, já que é contra o maniqueísmo. Nessa entrevista, também, dizia: "alguma vez viu-me atacar o Tribunal de Contas?". Só não uso sigla para não se confundir TC das Contas com TC do Constitucional. Dito isto, não entendo a reacção do presidente do governo ao relatório do organismo presidido por Oliveira Martins, TContas, sobre os empréstimos contraídos pela região autónoma da Madeira em 2010. Quando afirma que em época eleitoral há sempre uma instituição da República que "nos faz a vida num inferno" está a dizer o quê? Que chateia? Acredito. A interpretação dos números não é a interpretação de um poema. Da mesma forma que a democracia não é só ir às urnas votar no partido A,B ou C. A democracia é confronto de ideias. A discussão de temas concretos merece essa vivência democrática. Não vejo onde está o problema. É assim que as coisas devem acontecer, tal e qual o ar que respiramos. Sem esforço. Livre e naturalmente. A democracia não padece de asma brônquica. Não pode. Mas nessa entrevista de há 15 anos, o presidente do Governo da Madeira, questionado acerca da sua recandidatura depois de em 1991 ter garantido que seria o último mandato (isto sem falar numas declarações à Antena 1 em 1987), disse o seguinte: "(recandidato-me às eleições de 1996) por quatro razões: quero deixar prontas as infra-estruturas decisivas; quero liderar a discussão do III Quadro Comunitário de Apoio; quero perguntar, nestas eleições ao povo madeirense, se estes 18 anos valeram ou não a pena. É uma questão de teste pessoal. Finalmente, tenho de criar condições para que a transição da liderança do PSD/M se dê sem qualquer reflexo de desestabilização na vida pública da Madeira" (NM, 4 de Agosto de 1996) Aqui está o verdadeiro inferninho.

Lília Bernardes