Tenho seguido com especial atenção as alegadas razões psicossociológicas, educacionais, económico-financeiras, sócio-culturais, histórico-tradicionais, troiko-laborais, e até genéticas e hereditárias, possíveis e imagináveis, que possam explicar aquela condenável vaga de violência que varre os subúrbios das principais cidades do Reino Unido. Não têm faltado palpites para aquele que já está a ser um verdadeiro ‘case study’ para os investigadores da ‘Oxbridge’. A verdade é que, até agora, não encontrei um sentido lógico para qualquer um dos contornos daquele fenómeno de puro vandalismo, gratuito e avassalador, protagonizado por bandos de adolescentes saqueadores e gangues organizados de criminosos e parasitas sociais que estão a tentar semear a ruína, procurando guardar para si a auto-destruição do país como se de um troféu se tratasse.

Não restam dúvidas que a razão pela qual todas aquelas cidades estão ‘a ferro e fogo’ se resume a um brutal e infundado “porque sim”. É que os alibis e os pretextos repetem-se sistematicamente, talvez por contágio. Em Londres, foi o disparo impulsivo de um polícia que alvejou mortalmente um jovem que se resistia à detenção. Há uns anos, em Paris, foi a célebre e imprudente declaração de Nicolas Sarkozy para resumir tudo isto - “escumalha” - a mesma que viria a incendiar as ruas da capital francesa durante dias.

O que ninguém tem dúvidas é que toda esta poluição social, como já lhe chamam, não só surpreendeu a administração interna do Reino Unidos como também expôs vulnerabilidades evidentes e algumas incongruências difíceis de entender, mesmo pela geração de sobrevientes dos bombardeiros alemães durante a II Guerra Mundial: como é que um país desguarnece a população a tal ponto que os cidadãos têm de abandonar as suas casas para que sejam calcinadas pelos ateadores de fogo ou tenham ainda de entregar as lojas a saqueadores de ocasião? Porque se poupa tanto nas forças policiais incumbidas de defender a legalidade democrática e a segurança pública quando o país se endivida para investir milhares de milhões de libras - que já não tem – para manter os seus militares durante anos em missões de paz no estrangeiro?

Por explicar está também a reacção tardia das forças de segurança britânicas, que parecem ter paralisado numa aparente subestimação do potencial da sociedade de informação, enquanto os jovens organizavam sucessivas ofensivas através das redes sociais e de mensagens no BlackBerry. Temendo ficar mal na fotografia como tem acontecido em Belfast, palco de sucessivos confrontos entre católicos e protestantes, a Scotland Yard acusou o peso das câmeras e deu tréguas aos vândalos até a violência e os motins se dissiminarem por pelo menos cinco cidades inglesas, com um saldo de 100 polícias feridos, 650 detidos e danos patrimoniais incalculáveis. Perante um cenário dantesco e com ordens de recolher obrigatório nos subúrbios, o corpo de intervenção (ou polícia de choque) lá acabou por ser autorizado a lançar uma contra-ofensiva no final da 4.ª noite de caos (ontem), triplicando a presença dos homens da ordem nas ruas que tiveram carta branca para efectuar disparos de balas de borracha, se necessário. Afinal, alguém tinha de mandar a criançada de volta para a casa dos pais e a sentenciar: ‘Game is over’. Mas, ao contrário da ficção dos videojogos, este final não termina com vencedores e vencidos, mas com condenados e absolvidos. Reincidentes e reinseridos. Recuperados e casos perdidos. Na vida real, a justiça, tal como as oportunidades, chegam para todos. Por vezes tarde, infelizmente.