Está quase a fazer dois anos desde a crise financeira que pôs a descoberto as dívidas públicas de alguns países, entre os quais, o nosso. Uns dos grandes problemas que enfrentam as sociedades desenvolvidas que estão a braços com uma forte crise económica é a incapacidade de enfrentar a realidade. Esta semana assistimos a acontecimentos que o demonstram, na Grécia e no Reino Unido, e sinceramente espero que Portugal não siga o mesmo exemplo. Os "europeus" estão acostumados a trabalhar pouco - em termos de produtividade - e a ganhar muito dinheiro, para além de terem um estado social que os protege. Os sistemas político e financeiro criaram durante muito tempo um conjunto de ilusões e expectativas cor-de-rosa e os cidadãos acreditam numa interminável bonança económica, quando hoje, vemos só indicadores a vermelho e recessão, que são causadores de grandes frustrações. Hoje, há um desemprego crescente e uma noção de que não teremos mais a qualidade de vida que tivemos até agora. Esta é a realidade e parece que não a queremos ver. Com esta crise, creio que temos de ter a noção clara que teremos de ser mais produtivos, diminuindo drasticamente o absentismo e as baixas fraudulentas. Em suma diria que nos parece ser mais fácil aceitar, que se possa ir "de pobre a rico", mas, já de "ir de rico a pobre" é totalmente inaceitável. E é neste dilema em que estamos, pois não queremos aceitar que já "não somos ricos" e que não podemos manter o actual status de vida - com a actual produtividade. Não se trata de um problema do liberalismo económico nem de mercado, mas sim de um problema de aceitação da realidade.
Ivo Correia, Economista