As medidas de austeridade anunciadas na Assembleia da Republica no decorrer do debate sobre o programa do governo, agravam as medidas anteriormente anunciadas incidindo mais uma vez sobre as condições de vida e de trabalho. É como se a crise em Portugal e nos restantes países da Europa, estivesse relacionada exclusivamente com o fator trabalho e não com o factor financeiro e económico. Nunca a sociedade dispôs de tantos saberes, recursos, instrumentos e capacidade de produção de bens, no entanto assistimos a um retrocesso que remonta ao século dezanove no que diz respeito às medidas laborais e às políticas sociais. O modelo de globalização das últimas décadas centralizado no setor económico e financeiro, desencadeou uma forte ofensiva contra os direitos laborais e sociais e paralelamente contra os serviços públicos, aprofundando o confronto público / privado como se os serviços públicos fossem os únicos responsáveis pelas dificuldades existentes. Os governos nos diversos países e as instâncias internacionais apesar dos recursos e dos instrumentos ao seu alcance, não previram a crise em curso e como se tem vindo a observar não têm soluções, nem estavam preparados para lidar com a situação desencadeada nos últimos anos. Perante este cenário e olhando a nível global, para as restantes zonas económicas a Europa em plena fase de expansão e consolidação da moeda única, justifica a adoção das sucessivas medidas de austeridade, em nome dos critérios de convergência e na defesa da estabilidade financeira da zona euro. Em Portugal com a adesão à moeda única vários foram os constrangimentos, o país deixou de poder emitir moeda própria e euros, pelo que cada estado membro teve de passar a manter um delicado equilíbrio entre a receita e a despesa. Ao não conseguir manter esse equilíbrio por incapacidade e incúria dos sucessivos governos, o país derrapou. O desequilíbrio das contas públicas levou, a que organizações externas impusessem recentemente ao País um quadro de medidas cujo objetivo é diminuir a despesa pública, incidindo fundamentalmente sobre os trabalhadores, os serviços públicos e o estado social. Perante um contexto difícil e de duvidosa solução, os últimos dados divulgados pelo INE confirmam que Portugal entrou em recessão económica e as medidas ora propostas irão aprofundar ainda mais essa recessão. Vamos continuar a assistir à redução do consumo público e privado, à redução dos serviços públicos essenciais ao cidadão nomeadamente a saúde e a educação, assim como o agravamento do desemprego entre outras situações. A estratégia dos sucessivos PEC, vai manter-se num cenário cada vez mais instável. Perante este difícil contexto, sem precedentes para os sindicatos, exige-se uma profunda e ampla reflexão assente na experiencia sindical adquirida que fomente e fortaleça novas estratégias. A capacidade sindical para a mobilização dos trabalhadores está inserta na natureza da sua vida coletiva sendo essencial para reforçar a capacidade de acção e intervenção, influenciando positivamente os acontecimentos.