É tão difícil falar a verdade e por vezes admiti-la. Teoricamente ninguém mente. As mentiras resumem-se a situações circunstanciais, todas elas devidamente justificadas, pelos mais diversos motivos. Só se mente por necessidade. E quem não tem necessidades? Os que mentem, passam a acreditar nas suas próprias mentiras e transformam-nas em verdades absolutas. Os que acreditam, preferem muitas vezes aceita-las, pois talvez lhes pareça mais fácil lidar com uma boa mentira do que com uma verdade nua e crua. Transforma-se então a mentira numa nova possibilidade de contornar a verdade. É interessante, perceber no discurso comum, as referências constantes à mentira e a exaltação da verdade, como valor fundamental. Pode-se então supor que o que se diz não corresponde de todo ao que se faz, servindo esta prática de modelo para os mais novos, que atentos a tudo o que os rodeia, cedo percebem a táctica e cedo começam a usá-la, muitas vezes a desfavor de si próprios. Quando apanhados pelo mundo dos adultos, deparam-se com diferentes reacções, que vão desde o tapar de olhos e deixar andar, até aos sermões, ricos em valores e princípios, que rapidamente se traem quando se regressa à prática da vida. Claro que aí, por vezes, há o cuidado de explicar a razão da mentira, através de argumentos que para os adultos se apresentam válidos e para os mais novos um ensino reforçado do valor e razão da mesma. Por vezes sente-se que esta normalização do comportamento das "inverdades"vem proliferando no tempo, alastrando-se a quase todas as áreas da vida. Também no campo emocional a mentira em forma de verdade alimenta certas relações, onde quem engana e é enganado vive semiconsciente, numa tentativa de perpetuar enquanto possível a ilusão de que aquela é a verdade que no momento interessa a ambos. Claro que as ilusões são temporárias, não se consegue edificar estruturas sólidas apoiadas em alicerces pouco ou nada consistentes. Quando a mentira termina e a verdade emerge, o sentimento mais nobre passa de um dia a outro a uma vivência trágica e sofrida, que não raramente alimenta a esperança de retorno: "preferia nunca ter conhecido a verdade", " era mais feliz quando tudo parecia correr bem". É óbvio que existem abusadores emocionais sempre prontos a alimentarem-se de presas fáceis, disponíveis para agarrar ilusões e em deslumbre alimentarem os seus egos. É um jogo entre parceiros inseguros e desnivelados onde cada um aproveita do outro aquilo que precisa. No fim a tragédia mascara de novo a verdade, o registo dos bons e dos maus, do culpado e do inocente. E durante o processo, os indícios e as "inverdades"que ficaram por esclarecer em nome do "é melhor não mexer muito que pode estragar". É um pouco como o chocolate, sente-se que não está bom mas a gula de o comer até ao fim leva á intoxicação. Houve prazer, sem dúvida, mas terá valido a pena? Na minha opinião, aceitar a verdade vale sempre a pena. O processo pode ser lento, até porque há peritos na arte de mentir, mas quando começa a ser visível não vale a pena aguardar pela intoxicação. Esclarecer! Nem sempre é possível pela palavra, o invisível não se vê sente-se. Estar atento, ter direito a proteger-se, não é quebrar a espontaneidade é ter a possibilidade de viver com intensidade e sem medo. Incentivar, legitimar, promover, desvalorizar a mentira é ensinar a arte de abusar ou ser abusado. Neste jogo ninguém é verdadeiramente feliz e livre. Ninguém aprende a amar. É ensinar a viver no faz de conta. Não são só os políticos que mentem e a mentira não nasce na política. Os políticos, são pessoas que como tantas outras aprenderam aquilo que lhes ensinaram. E os próximos vão ser os nossos filhos. Ser verdadeiro é uma porta de entrada para o sucesso do mundo que se pretende construir. Talvez seja útil começar a tentar!

Manuela Parente - Psicóloga