Pe. Rafael Andrade Há algumas, curiosas,mas não lhes damos importância.A fundação da Diocese do Funchal pelo Papa Leão X a 12 de Junho de 1514,e o quase simultâneo despoletar do Protestantismo logo em Agosto do mesmo ano, que teve como protagonista Martinho Lutero,claro que são uma coincidência.Acho mesmo uma curiosidade histórica. Quero, desde já esclarecer que,estou convicto de que esta circunstância em nada afectará o alto significado atribuído às celebrações do centenário da criação desta Diocese,até ao momento já anunciadas. Qualquer estudante de História Universal e sobretudo da Igreja, conhece ao menos linearmente, as razões da profunda cisão vivida em plena Europa, no primeiro quartel do séc.XVI.Os países do Norte e do Sul do Velho Continente dividiram-se em protestantes e católicos romanos.Esta dramática situação ainda perdura. E se é verdade que nas últimas décadas se fizeram ténues progressos em direcção a um melhor relacionamento,sobretudo a partir do Concílio Vaticano II,nem por isso as relações mútuas melhoraram significativamente.Numa palavra,os cristãos não se entendem.Ninguém,sequer, ousa prever o ocaso de tão dramática e perniciosa separação tão oposta à essência do Cristianismo. A propósito,quando estudante, perguntava aos meus professores qual a razão por que os países protestantes eram quase todos ricos,enquanto os países católicos eram quase todos pobres,as explicações variavam e eram pouco claras. Em Janeiro de 1975 e anos seguintes, católicos, evangélico-presbiterianos e anglicanos, realizámos encontros das respectivas comunidades cristãs da Madeira, não só na Semana da Unidade mas também noutras alturas.Alegro-me por ter intervindo nestas actividades. Penso mesmo que,no momento presente, é mais fácil conversar,conviver e rezar juntos, o que antes era impensável.

Mas, que diz a História a propósito?Recordo o que aprendi nos meus recuados tempos de "teenager"e que,volvidos tantos anos, ainda consigo reavivar. No séc.XV o clero encontrava-se profundamente dividido em alto clero possuidor de grandes riquezas,influências e regalias, e baixo clero que constituia um autêntico proletariado "avant la lettre", sobrevivendo penosamente.O ambiente estava extremamente aberto à Reforma Protestante.de Martinho Lutero que,tão tragicamente,rasgou um rude,profundo e irreparável golpe na unidade da Igreja. Em Agosto de 1514,o arcebispo de Magdebourg foi promovido a arcebispo de Mayence e para cobrir os custos da sua entronização, concedeu uma indulgência plenária,mediante o pagamento dum tributo.Metade do pecúnio recebido seria destinado à reconstrução da Basílica de S´Pedro em Roma.O pregador dominicano Tetzel foi o promotor-mor da cruzada. Lutero encontrou,aqui, um pretexto fácil para a denúncia.Nas 95 teses afixadas na porta da colegial do castelo de Wittenberg,Lutero afirmava que o Papa não tem poder de perdoar senão as penas por ele próprio impostas e que basta a fé mesmo sem as obras para conseguir-se a salvação eterna.E que a basílica de S.Pedro não deveria ser construída com o dinheiro dos pobres,mas às custas do papado. Esta tese foi recebida com grande entusiasmo pelos católicos alemães,já exacerbados pelo "tráfico das indulgências" e pelo ambiente geral anti--romano dessa época,na Anglo-Saxónia. O Papa era Leão X,o mesmo que instituiu a Diocese do Funchal,em 12 de Junho de 1514.

Pura coincidência? Certamente.Não deixa,todavia, de ser curiosa,e muito certamente não ensombrará as celebrações que já se iniciaram e se prolongarão até 2014-- o quingentésimo aniversário da criação da Diocese do Funchal como acima referi--e que foi,embora efemeramente, o arcebispado católico mais extenso na história da Igreja.A sede era nesta cidade e estendia-se até Goa,compreendendo as comunidades cristãs entretanto estabelecidas nas terras descobertas pelos navegadores portugueses. Na Madeira,nas últimas décadas, o relacionamento entre católicos, protestantes e anglicanos tem sido pacífico,mesmo exemplar, Estou convencido de que assim prosseguirá. É que os erros humanos são o preço das nossas debilidades.A Providência Divina tem os seus caminhos e desígnios que superam as nossas fraquezas.