Há uma leitura positiva dos primeiros dias deste novo governo nacional: é que será diferente! Resta saber se será diferente para melhor ou diferente para pior. É um dado adquirido que Portugal tem, inevitavelmente, de mudar de rumo. Que tem de assumir medidas impopulares, que tem de cortar em despesas, que tem de emagrecer as gorduras das contas públicas, que tem de exigir mais sacrifícios aos portugueses. Mas também parece aceitável que não se pode passar do 8 para 88, assim, como num passe de mágica. Como disse, e bem, o Presidente da República, no tempo do anterior governo, há limites que não devem ser ultrapassados sob pena de se potenciar o descontentamento, o descrédito na Política e, em última análise, a agitação popular. Mas este novo governo, com uma dose de coragem que deve ser reconhecida, 'entra a matar'. Esquece essa conversa dos limites, esquece até o desabafo do actual primeiro-ministro que, em Março, considerou um absurdo o corte nos subsídios de Natal, que anteontem anunciou ao País. Temos assim que este Governo anda com um mão dada à audácia e outra à falsidade. Essa dupla condição é a primeira imagem de marca deste executivo de coligação que, chegado ao poder, a primeira coisa que anuncia são cortes sociais, de efeitos transversais, mas ainda sem saber muito bem como os vai aplicar. É certo que podia ter entrado com falinhas mansas e soaria a falso na mesma. Mas também é certo que não se deve começar a governar com medidas que não fizeram sequer parte dos temas debatidos em campanha. Há outro dado que me parece relevante: a estranha necessidade que demonstra Passos Coelho em tentar ser melhor aluno que o professor. E isso, normalmente, não dá certo. Falo concretamente da extrema vontade do primeiro-ministro querer ser mais 'troikista' que a troika - como disse um deputado, de quem não me lembro o nome, no primeiro debate em São Bento. Se o plano da 'troika' previa um aperto significativo, mas suficiente para o resgate da dívida pública, não se percebe a necessidade de repetidamente anunciar, e executar, medidas que vão além desse já grande sacrifício que é pedido aos portugueses. Não se pode perder tempo, mas "depressa e bem não há quem"... Em resumo, e porque ainda é cedo para análises mais profundas, o que se pode dizer destes primeiros dias de Passos Coelho e Paulo Portas é que levam o carro à frente dos bois. E que tanto ímpeto progressista resultou, até agora, num claro desequilíbrio ao nível dos sacrifícios: para os cidadãos, já existem medidas duras; do controlo das contas do Estado, ainda não se conhecem planos de rigor. Resta esperar.