Demagogia é segundo os dicionários a "arte de enganar o povo". Em termos mais concretos é uma estratégia utilizada para atingir ou manter o poder político apelando aos preconceitos e desejos da população em vez de utilizar argumentos racionais. Os tempos de crise são particularmente propícios para o exercício desta arte. As pessoas estão mais susceptíveis aos medos e manipulações, procuram soluções fáceis para problema complicados e naturalmente preferem acreditar numa solução fácil e simples para qualquer problema grave e complicado. O que me interessa particularmente no tema da demagogia não é o exercício desta arte, mas a razão pela qual as pessoas se deixam tão facilmente seduzir por argumentos manipuladores. Na minha opinião grande parte dos problemas que Portugal e muitos outros países periféricos europeus enfrentam estão diretamente relacionados com a prática estabelecida e aceite da demagogia. Mais uma vez de pouco me interessam os políticos sem escrúpulos que são mestres desta arte, mas os povos que mais facilmente se deixam enganar por práticas demagógicas. A razão pela qual Portugal está a enfrentar uma crise muito grave deve-se muito mais à nossa responsabilidade colectiva de eleger lideranças demagógicas, do que à responsabilidade individual de quem domina muito bem essa prática. A crise da dívida soberana é uma crise com raízes demagógicas. O endividamento irresponsável que nos levou a esta crise está muito relacionado com o que chamo de "fuga demagógica". Votamos nos políticos demagogos para evitarmos uma realidade que nos custa a aceitar. Em vez de enfrentarmos a realidade, exercemos o nosso direito de voto para mudar os responsáveis nos quais projetamos toda a porcaria que não queremos ver em nós próprios. Este exercício está a levar a política para uma mediocridade sem precedentes. Os políticos que sobrevivem são os que se prestam ao exercício da demagogia, não os que lá chegam por serem mestres nessa arte. Este problema é muito grave e não se passa apenas em Portugal. A verdade é que a atual geração de líderes políticos europeus sofre com raras exceções do mesmo problema. A razão pela qual não temos grande líderes políticos é porque não recompensamos (através do voto) os melhores e mais competentes da nossa sociedade. Uma sociedade que não coloca na liderança os melhores tem os dias contados. E não estou apenas a falar dos países periféricos que têm muito exemplos de mediocridade em altas funções de estado. Estou a falar de políticos franceses como o recente caso do Presidente do FMI, ou de políticos Alemães como os recentes casos de ministros acusados de plágio nas suas teses de doutoramento. Mais uma vez o problema não está nas pessoas com problemas de carácter mas na nossa complacência masoquista em não compreender que enquanto não criarmos condições para termos os melhores a liderar os nossos destinos vamos continuar condenados à mediocridade. Um dos meus exemplos preferidos do exercício da demagogia em tempos de crise é a "febre" que se instalou com a necessidade dos políticos darem o exemplo. Começou com a diminuição dos salários dos detentores de cargos políticos e agora continua com episódios absolutamente ridículos do Primeiro Ministro a viajar em classe económica e das reduções dos custos de funcionamento de gabinetes e ministérios. Não tenho nada contra os exemplos, são normalmente bons princípios de educação. Todos em tempo de crise temos que fazer escolhas e cortar no que é supérfluo. Mas os exemplos que o país necessita não se esgotam nas reduções em custos que, por muito supérfluos que possam parecer, são insignificantes. O que Portugal precisa é de líderes competentes que sejam capazes de tomar decisões estruturais corajosas que nos podem salvar de uma crise ainda mais grave. De que me serve um ministro que não segue medidas estruturantes na educação e na ciência que envolveram investimentos elevados e que podem não ter continuidade, mas que tem menos dois assessores e motoristas? De que me serve um primeiro ministro poupar umas centenas de euros a viajar em classe económica se depois não é capaz de apoiar corajosamente os seus ministros nas decisões que podem envolver poupanças de muitos milhões de euros? Escolhi estes dois exemplos porque me parecem ser precisamente dois exemplos paradigmáticos. As decisões de Nuno Crato de continuidade no que de bom se tem feito na educação e ciência em Portugal são decisões corajosas de que todos devemos aplaudir. As escolhas de vários ministros jovens, independentes e com provas dadas na sua profissão são de enaltecer. Espero sinceramente que tenham o apoio político para fazer o que é necessário sem demagogia. * Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal
Nuno Nunes - Professor Universitário*