Por mais que se faça não aparece cá ninguém, lamentava-se o aguerrido e empreendedor companheiro lá da ponta norte da ilha. Mas quando eu quero encher isto de gente, pego no telefone, digo em "segredo" a meia dúzia de comparsas que vou matar uma bezerra e eles aparecem aqui aos molhos que nem milhafres. Chegam, comem, batem umas palmas, vão embora e nem sequer agradecem. O chefe regala-se, fica contente e eu levo a água ao meu moinho. Bezerrinha aqui bezerrinha acolá, o povo foi tomando o gosto e em menos de um fósforo a coisa passou a ser o pão nosso de cada dia. Nem as instituições mais experientes escaparam a esta onda de facilitismo . A sustentabilidade financeira foi simplesmente banida. Muitos dirigentes, alguns caídos de pára-quedas, trocaram a perna e quanto a trabalho, "espera que espera vai esperando que eu já te atendo". Construir, fazer obra, era o que mais contava. E fez-se. Fez-se e algumas até necessárias e bem feitas. Fazê-las funcionar e com que meios, nem sempre foi equacionado. À sombra da "borla" liquidou-se a exigência, o rigor, o bom senso e a responsabilidade. Pior ainda, afastou-se o povo da bilheteira. As associações descalçaram-se, iludidas por promessas atrás de promessas e agora que as bezerras acabaram vão ter de pastar de pata rapada, carregando os encargos nos braços, até perceberem que não há piqueniques grátis. Veja-se a afluência de público aos novos auditórios. Quantos madeirenses sabem da existência do Festival de Música da Madeira? Não há responsáveis por esta situação?

Eurico Martins - Director artístico da Orquestra de Bandolins da Madeira