Há os que olham para a política, sem esperar nada dali. São os que se abstêm de votar, os que acham que é exactamente igual escolher A, B ou C.

Também há quem acredite, milite e defenda a sua cor partidária como se de um clube desportivo se tratasse e ainda os que têm, apesar das convicções, espírito crítico. Depois há os que olham com descrença, mas ainda assim votam, com uma réstia de esperança e com a sensação de dever e direito cumprido. Os que têm a clara convicção de que a democracia é um mal menor com o qual temos de ir vivendo.

Todos estes que escolhem votar, independentemente dos motivos, têm oportunidade de viver esta sensação única, que muitos de nós experimentam no arranque de um novo ciclo eleitoral, de que desta as coisas vão ser melhores. Mesmo quando todas as evidências nos dizem que vão ser piores. Quando nos anunciam um agravamento de impostos, um corte significativo no subsídio de Natal, quando nos tinham prometido não ir por aí. E até quando os nosso parceiros de infortúnio estão a ferro e fogo na rua, pensamos, no nosso íntimo, que aqui vai ser diferente.

Isto acontece porque no arranque de uma nova fase não é só o Governo que está no chamado ‘estado de graça’, são também os eleitores.

Mesmo quando sabem que dali pode resultar coisa nenhuma, como em ciclos anteriores que começam sempre com um rol de boas intenções, têm uma fé – por vezes abalável – mas que, mesmo assim, não se explica. Acreditam mesmo que as coisas serão diferentes. E por isso mesmo quando cospem insultos à classe política nos cafés, creio que a maioria (da população que vota) está a fazer figas para que dê certo. Para que as coisas endireitem e vivamos numa sociedade mais próspera e justa. Onde o sentido de Estado se sobrepõe ao interesse próprio e é defendido por critérios justos e não à conta de favores e compadrios.

Esta é a grande virtude deste falso começar de novo. Por instantes achamos que podemos fazer reset e iniciar do zero. Não podemos, vamos arrancar antes disso, como todos os que têm dívidas, mas a lufada de ar fresco das coisas novas dá-nos outro ânimo, ainda que temporário.

Mas assim como o ‘estado de graça’ de um novo Governo é efémero também é o dos cidadãos. E não há povo, por mais naif que seja, que aguente os sacrifícios sem reclamar. E da graça à desgraça são três letras apenas.

P.S. Os madeirenses nunca experimentaram esta sensação. O vento da mudança, para melhor ou pior, nunca soprou, nem bafejou os rostos da resignação com a doce brisa da diferença. E isto, até para quem aceita os males democráticos,é difícil de engolir, porque todos têm direito de or vivendo ao longo da vida vários momentos de ‘estado de graça’.