Em primeiro lugar, demo-nos todos os parabéns, pois hoje é o dia da nossa Região. O título deste meu "escrito" vem a propósito das declarações de muitos "pensadores" e "actores" regionais, sobre o tipo de turistas que deveríamos ter. E é ouvir um arrolamento de "exigências": não queremos turistas de "pé rapado", turistas de "all inclusive", turistas "low-costs", etc-etc., aliás já expresso também no Programa de Governo da República:" Apostar no crescimento da receita por Turista, mais importante do que apostar no aumento massificado do número de turistas". Perante este diagnóstico, pergunto-me: - em primeiro lugar, que taxas de ocupação hoteleira tem este destino, para que os agentes da oferta turística tenham esta "capacidade" tão selectiva ? 48% de ocupação média anual é, em muitos casos regionais, um perfeito desastre económico, pois se aquela é a ocupação média e se uns têm ocupações manifestamente mais altas, outros existirão com ocupações manifestamente mais baixas!! Por isso, e realisticamente, temos em muitos casos o que há e não o que sonhávamos ter!! - mas em segundo lugar, é ou não o produto que tem de estimular a procura, oferecendo aquilo que o cliente busca? Se quero melhor e mais selectivo cliente, tenho de ter melhor e mais selectivo produto. Já o tinha referido em "escrito" anterior, que, nos inquéritos feitos aos turistas que nos visitam, as principais mais-valias do destino são, além da ligação afectiva aos hotéis, a natureza e o mar, a amenidade climatérica e a o bom ambiente na cidade do Funchal. E que resposta temos, nesta data, para dar a este reconhecimento? - mar - com dificílimos acessos para a maioria da população e dos turistas e com uma incapacidade mais que evidente em controlar a qualidade das águas - terra, esgotos, manchas de óleos, etc. ( Ai Lido, que saudades nas fazes sentir !!) - natureza - com enormes debilidades, fruto das intempéries naturais, mas onde há ainda um enorme trabalho a fazer na garantia de qualidade dos percursos. - cidade do Funchal - aqui reside, quanto a mim, o que poderá ser um dos elementos mais perversos, para a manutenção da competitividade do destino. Não bastassem as obras inacabadas, com particular destaque para os tapumes da Avenida Sá Carneiro, que transformaram um passeio agradável, num corredor minúsculo e perigoso e para esse abjecto aterro, surge agora o mau agoiro do novo famoso cais de acostagem do Porto do Funchal. Num período de alguma recuperação turística, vamos fazer obras megalómanas ( e totalmente desadequadas), transformando aquela que é umas das zonas mais atractivas do nosso destino em "estaleiro", durante dois ou mais anos, para depois termos navios com alturas correspondentes a prédios de 15 pisos, mesmo dentro da cidade. É importante nos capacitarmos que o ranking do destino Madeira (não os Hotéis), nas classificações dos diferentes maiores Operadores Turísticos, tem vindo a registar uma classificação longe dos destinos considerados "tops" de popularidade. Num momento em que os recursos financeiros para investimentos são tão escassos, diria praticamente inexistentes, não faria muito mais sentido dar prioridade às infra-estruturas que são fundamentais para a manutenção da qualidade do destino Madeira (limpeza do aterro , Lido, tratamento do litoral, recuperação e vigilância dos percursos pedonais por essa Ilha dentro, tratamento de jardins urbanos abandonados, recuperação da zona histórica do Funchal, novo ordenamento comercial no centro da cidade, redimensionamento do tráfego e das vias rodoviárias na zona de expansão turística, etc.) e... deixar os novos cais, as marinas, as quotas 500, o golfe da Ponta do Pargo, para outras oportunidades? Assim julgo, poderíamos escolher os "melhores turistas", porque tínhamos argumentos para eles… nos escolherem a nós.

António Trindade - Empresário