Abster-se é tanta coisa, que não só, não votar nas eleições para escolher os nossos representantes políticos, regionais , nacionais ou europeus. É muito mais do que isso, é desligar-se, esquivar-se ou fugir a responsabilidades, e que, não são as exclusivas e inerentes á nossa cidadania. E quando, quase metade da população, se esquiva a responsabilidades desta natureza, alguma coisa está mal e há que reflectir porquê. E até saber quem são! Não os seus nomes, mas saber onde reside a dita natureza destes actos. Claro que abster-se não se limita ás eleições de carácter político, porque existem outras e muito variadas, em clubes, associações desportivas, profissionais, estudantis, existem os referendos, etc. Também na escolha duma religião, e quando se ouve dizer, muitas vezes em alto e bom som: sou católico mas não praticante!!! Estamos em presença duma abstenção, em forma de opção assumida e não consumada assiduamente, sem necessitar de exercer o acto de votar. E são também as dezenas de milhares de condutores, espalhados pelo território nacional, que demitindo-se das suas responsabilidades, circulam com cartas ilegais - mas com registo dentro do prazo - por via duma lei, que obriga á renovação da permissão de conduzir. E que se abstiveram negligentemente das suas obrigações, justificando, um injustificável desconhecimento dessa lei! Até no simples acto de cumprir com o calendário de vacinação nacional obrigatório, pessoas há, que se esquivam de o fazer, referindo não acreditar nas vacinas, obrigando a sucessivas convocatórias por cartas registadas. E abstêm-se permanentemente faltando ás consultas médicas programadas, aos exames médicos de especialidade para avaliação e diagnóstico - que por acaso, ainda são realizados de borla - sem sentirem qualquer obrigação em se justificar. Pelo menos e no mínimo, por estarem a "roubar" o lugar dos outros. Assim, um pouco por todo o lado, vamos observando a desconectação, das pessoas com a política, com a religião, com a saúde, com o cumprimento de leis essenciais de regulação das sociedades ou com o simples cumprimento de regras básicas de convívio em comum, afinal com coisas elementares, que até são do seus próprios interesses e pensados para o bem pessoal. E nas famílias, destacando os aspectos educativo e nutricional, também se assiste á atitude de "desligar" ou "deixar andar", libertando em exclusivo para a escola, uma responsabilidade que devia ser partilhada ou repartida. Tudo isto já existe muito antes da crise e muito antes da troika! Tudo isto deve estar a acontecer, porque afinal, não devemos ser os tais descendentes dos descobridores das Índias e das Américas, mas porventura daqueles que aqui ficaram! E que não embarcaram nas naus e galeras porque "passavam mal" com o balanço das ondas dos oceanos! E não me digam que não é preocupante saber que, "quase" um em dois, não conta, isto é, não entra na conta! Porque optou, não ir, não mostrar a sua opinião e não participar! Os sociólogos, os filósofos e outros letrados deste mundo, já devem ter explicação e diagnóstico desta situação, a qual deve ser comum a múltiplas outras sociedades,... mas com os problemas dos outros vivemos nós muito bem! Importa-nos sobremaneira a "nossa casa" e o que aqui está a acontecer! As prioridades das pessoas alteraram-se, e alteraram-se os objectivos dos singulares, dos casais e das famílias. Os filhos começam a ver o horizonte mais distante, ... e já muito nublado, como se da eminência de chuva se tratasse. A velocidade das coisas, parece que "endoideceu" e o que hoje é válido, amanhã fica de súbito ultrapassado. E este reconhecido "cambiar" do estado das coisas, contagia de tal modo as pessoas, que as vemos sempre impacientes e cheias de pressa - até na bicha para tomar o "raio" da bica - para depois, se verificar que nada têm de importante para fazer! Não são as farmácias que têm a solução para este "laisser faire, laisser passer"! E se não há remédios à venda para esta 'malapata', como vai ser?

José Manuel Morna Ramos