Guido Gomes A maioria das pessoas votou contra José Sócrates. Os eleitores pertencentes à classe média e à classe média alta que votam habitualmente no Partido Socialista manifestaram o seu desagrado e mesmo repulsa pelo personagem, votando nem partidos alternativos ao PSD, reforçando desse modo a influência do CDS/PP e de toda a direita, especialmente as alas mais radicais do PSD. Ainda que se possa compreender esse desagrado, o que daí resultou foi uma coligação neoliberal forte que tem todas as condições para implementar a sua agenda de mercantilização dos serviços públicos, cuja entrega ao mercado terá consequências imprevisíveis, mesmo para aqueles grupos sociais de rendimentos mais elevados, mas fortemente comprometidos com os seus encargos bancários e com o seu rendimento disponível já praticamente cativo por esses compromissos. Quando for claro o significado das reformas na Saúde e na Educação, pretendidas por Passos e Portas, estes grupos sociais verão o quanto teria sido melhor terem optado pela liderança socialista. Quando começarem a pagar a escola dos filhos, as consultas e internamentos nos hospitais, que passarão a ter uma gestão privada - pelo menos -, aí não me restam dúvidas do lamento e ranger de dentes. Virá a emigração, um fenómeno que os madeirenses bem conhecem desde sempre e que não foi interrompido nunca, mesmo depois do 25 de Abril. Os emigrantes, até agora provenientes dos grupos sociais mais pobres e que sempre tiveram Londres e as ilhas do Canal como fonte de rendimento, serão agora pessoas de condição social mais elevada que nunca julgaram procurar trabalho no estrangeiro. Professores que votaram no Bloco de Esquerda, por retaliação às propostas socialistas para a sua profissão; funcionários públicos que esqueceram os aumentos salariais anteriores à redução que Sócrates viu-se obrigado a decidir, serão agora confrontados com as suas próprias escolhas que se traduzem agora no enfraquecimento do socialismo democrático e na governação neoliberal, que coloca o mercado acima do indivíduo. O emprego desprotegido, a escola e saúde privatizadas, para as quais teremos de pagar, é o que nos espera. Temo que seja difícil restaurar o que esta direita ultra-radical vai destruir.