"Diz-me e eu esquecerei; ensina-me e eu lembrar-me-ei; envolve-me e eu aprenderei." Provérbio chinês Tudo terá começado no início do ano lectivo que agora termina, à volta da análise de um documento sobre a 1ª República, numa aula de História do 12º ano, de Línguas e Humanidades, em que o conceito "governo sombra", foi citado marginalmente. Os alunos terão apreciado a ideia e quase por brincadeira, resolveram criar um "partido político", o PEC: Partido da Elite Cultural (terão sentido estar o actual espectro político-partidário precisado de elites renovadas e de mais cultura?). Vai daí, constituíram um "governo" e elaboraram um programa, que foi apresentado ao público - os pais e professores - no passado dia 10 de Junho, tudo pincelado com muito entusiasmo, carolice, uma certa dose de ingenuidade, algum sentido de humor: como o propósito da "Ministra das Finanças" de suprimir os carros oficiais, em favor dos transportes públicos, o que obviamente arrancou gargalhadas aos presentes. Sob a coordenação das disciplinas de História e de Geografia C, eles souberam estar atentos a toda a informação das diversas disciplinas, produzindo conhecimento, descobrindo novos saberes. Estudaram dossiers, pesquisaram muitas fontes, desde a Declaração dos Direitos Humanos, a Constituição, Programas de Governo, Legislação, etc. Como se da Assembleia da República se tratasse, cada aluno vestiu uma pasta ministerial, apresentando as medidas programáticas da sua tutela. Do seu discurso depreendeu-se uma forte noção de justiça social, de necessidade de redistribuição da riqueza, da urgência de uma política fiscal dinâmica de apoio ao investimento indispensável à criação de riqueza, uma veemente censura à fraude e evasão fiscal, na noção de que pagar impostos é um dever de cidadania básica. Partiram do círculo virtuoso da riqueza com base nas actividades primárias como forma de minimizar a nossa forte dependência externa. Falaram de todos os aspectos da vida do país: da agricultura ao comércio, da indústria à educação e cultura e ao ordenamento do território; do PDM, do caos urbanístico, do despovoamento e desertificação do interior (e da costa norte da Madeira!). Sobre as questões sociais, focaram a necessidade de os jovens se interessarem mais por política, a importância de mais estudo das artes e humanidades, de uma atenção à preservação do património, da história, da paisagem; apontaram também a modernização do país, pelo desenvolvimento da ciência e de todas as áreas do conhecimento, como saída para a crise. As vulnerabilidades sociais, a pobreza, as desigualdades, as problemáticas do desemprego e dos jovens não podiam ficar de fora. Mereceu-lhes forte censura a subsidiodependência estéril e a recusa de propostas de trabalho dos que preferem viver do subsídio de desemprego… Mas também o valor da solidariedade, da cooperação e inter-ajuda. Este e outros trabalhos da mesma turma (ver site da Escola Básica e Secundária de Santa Cruz) fizeram realçar a importância da Área de Projecto, potenciadora da interdisciplinaridade, do trabalho de equipa, da criatividade, da liderança, da responsabilidade, da consciência social, ambiental e crítica, do espírito de observação e do empreendedorismo, competências transversais para a vida, saberes não verificáveis em exames. Permitiu ainda vencer inibições, inseguranças, descobrir talentos e entrever percursos profissionais, deu brilho a características de personalidade. Saímos da apresentação com optimismo, fé no futuro, consciência do dever cumprido e um vago sentimento de saudade: alunos destes inspiram a alma dos professores. Havemos de ouvir falar deles! Acautelem-se os acomodados… O tempo é de exames, aquela liturgia tão ao gosto do novo Ministro da Educação - e não só! - como única via de avaliação do rigor, da excelência, da aprendizagem e do mérito da escola. E estes alunos também estão a realizá-los. Mas a prova provada de saberes de excelência, eles já o mostraram no passado dia 10 de Junho.
Júlia Caré - Professora