"Como se pode viver uma vida vazia? Como se pode viver uma vida cheia de nada?" Benjamin Espósito In El secreto de sus ojos Toma hoje posse um novo governo. Iniciamos, assim, um "novo" ciclo político. Dizem os analistas, comentadores, politólogos que pululam entre um canal e outro das nossas televisões. Uns afirmam que com este novo Governo e novo ciclo renovamos a esperança, outros, poucos, que continuamos no trilho da inevitabilidade, já que somos/seremos, nos próximos anos, governados pelo memorando da troika. Aqui, na Região, estamos "entalados" entre o "novo" ciclo político da República e o fim de mandato e consequente o período eleitoral que se aproxima para o Governo Regional da Madeira. Este é também o aproximar do fim do ano lectivo, para os alunos, docente e todos os elementos que formam e enformam a comunidade educativa. Ciclos eleitorais à parte, este ano escolar termina e, concretamente, para a classe docente, com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Entra ano e sai ano e os problemas e as incertezas que atravessam a classe docente, mantêm-se. O ano começou com incógnitas quanto às alterações do Estatuto da Carreira Docente e à definição, clara, de um modelo de avaliação de desempenho, e termina envolto nas mesmas incógnitas. O ano começou e terminou sem definição quanto ao tempo e forma de pagamento dos retroactivos devidos a milhares de docentes, por inoperância do Governo Regional, que não reconheceu como válido o Bom administrativo, atribuído por despacho do presidente do Governo. Rápidos e implacáveis a exigir a devolução que, também por inoperância, pagaram, segundo interpretação própria, indevidamente, pagar o que devem, desde 2008, aos docentes é atirado para as "calendas gregas". O ano começou e termina sem opções claras quanto ao futuro da formação contínua de professores; sem opções claras, quanto à necessidade, urgente, do combate à indisciplina nas escolas e ao reforço da autoridade do professor. Escudando-se na velha desculpa, esfarrapada e gasta, "do que vai acontecer " a nível da definição política e da cor do Governo da República e de quem ocupará a torre de marfim da 5 de Outubro, em Lisboa, o Governo Regional recusa arrogar compromissos e, com isso, assumir que caminhos quer trilhar na educação e, concretamente, no que quer definir no que concerne a uma classe profissional que diz respeitar e defender. Como é que se respeita e defende uma classe profissional quando dela nos esquecemos e a deixamos, por omissão e demissão, em banho-maria? Logo após o acto eleitoral do passado dia 5 de Junho, o Secretário Regional da Educação e Cultura, declarou, publicamente, que devia haver um pacto para a educação. Não podia estar mais de acordo. Subscrevo estas declarações. Mas uma dúvida ocorreu-me. Porque razão na RAM, com 35 anos de governo de maioria absoluta não foi possível estabelecer um pacto para a educação? Porque razão andamos sempre em modo de "navegação à vista" com o que acontece e é definido do outro lado do oceano e da conjuntura política da República? A pergunta que, recorrentemente, é feita: para que serve a autonomia? Bem ou mal, a mais das vezes mal, na minha opinião, o resto do país definiu e implementou a sua política educativa. Aqui na Região, continuamos envoltos em águas nebulosas e indefinidas, sem claras opções políticas sobre o que se quer. O estado da educação, do sistema educativo, das opções erradas ou mesmo das não opções tomadas exigem, efectivamente, um pacto para a educação. Impõe-se uma discussão séria e alargada, despida de partidarismos, para em conjunto se decidir o que se quer para a nossa Região e para o futuro das novas gerações. Não é possível continuarmos a adiar, nem a empurrar com a barriga, numa fuga para a frente, o que futuro exige de todos nós.

Marília Azevêdo