"A verdade é que não há nenhum conto de fadas que comece com a frase 'era uma vez uma filha de um presidente da República'". A afirmação foi proferida por D. Duarte, o Rei sem trono, em mais uma tentativa de defender a monarquia, esse regime de privilégios de berço, onde os homens não nascem iguais e onde o único mérito são os laços de sangue e o nascer com direito a títulos e honras entregues à partida e que estabelecem, sem recurso, um estatuto inacessível à maioria.
Sem negar a magia dos contos de fada, dos príncipes e das princesas, rainhas de copas e cavaleiros de paus, como republicana e laica prefiro os contos de fadas que acontecem aos homens comuns. Da mesma forma que prefiro os pequenos milagres da terra aos grandes segredos do céu, com os seus dogmas.
Prefiro essas conquistas que estão ao alcance de todos, independentemente do local onde nascem, do nome que transportam, do sangue que, afinal, corre de igual forma em nobres e plebeus.
Gosto de pensar que o nosso presidente da República é filho do senhor Teodoro da bomba de gasolina de Boliqueime e não alguém que detém o poder pela hereditariedade, como uma doença, ou um gene que determina a cor do cabelo e dos olhos, mas não a capacidade de sorrir e ser feliz.
É verdade que a República, como acontece com a Democracia, não é um regime perfeito. Mesmo sem os privilégios de berço, as desigualdades estão aí, a doer na realidade dos dias.
Mas os sonhos acontecem e a desvantagem à nascença pode e é, muitas vezes, driblada pelo esforço, pelo talento, pela persistência.
São vários os exemplos destas realidade. O último, contudo, porque mais próximo, também foi notícia nos jornais, com igual destaque da saudosa frase de D. Duarte.
Só que enquanto o putativo rei falava de contos de fadas irreais para o nosso país, o outro protagonista é herói de um conto de fadas de verdade. Chama-se Ruben Micael, nasceu do lado dos meninos pobres, dos que a vida coloca em desvantagem na linha de partida. Mas deu a volta, fintou o destino e hoje tem sucesso, reconhecimento e uma carreira de vento em popa.
Esta semana, este herói real teve a nobreza de ir à escola do 1º Ciclo de Câmara de Lobos, berço de muitos outros meninos sem sangue real, mas com a realidade por dentro e por fora de todas as veias e do coração.
E foi aos meninos que nasceram como ele que contou um verdadeiro conto de fadas. Recordou que já pediu dinheiro na rua, que chegava a casa ao fim do dia com a alegria de poder contribuir para a família. Viveu numa casa com apenas dois quartos, sem água quente e sem sapatos para jogar o futebol da alegria.
São memórias, mas também são a realidade que teve a persistência e a coragem de alterar e que foi possível numa República. Há lá conto de fadas melhor do que este!