Podia falar no facto de que quando eu nasci já o presidente o era. Na linguagem baixa com que presenteou a política elevando-a tantas e tantas vezes ao grau zero. Podia lembrar pérolas como ‘bastardos para não dizer...’. Recordar centenas de pura má-criação e são aos montes. A forma como tantas vezes se dirigiu aos seus opositores, aos seus inimigos e até aos seus parceiros políticos. E à comunicação social que tanto ama e despreza, numa relação que nem o mais inspirado Shakespeare conseguiria descrever.

E até podia citar livros recentes, que não lhe traçam o melhor perfil e o apresentam como um pândego - com excessos que nem à luz da juventude se entende -com poucas características para as funções que veio a desempenhar. Há mesmo quem o considere ‘uma grande fraude’ por isso. Mas não é o meu caso. Considero que Alberto João Jardim não deveria candidatar-se novamente a presidente do Governo Regional pela mesma razão porque me pareceu absurdo que Mário Soares se candidasse a um terceiro mandato como Presidente da República, vindo depois a perder para Cavaco Silva.

E não porque ache que se deva oferecer uma manta e chinelos a quem superar a barreira dos 65 anos de idade, mas porque não tenho dúvidas, e é bíblico, que “há um tempo para se nascer, e um tempo para morrer; um tempo para plantar, e um tempo para recolher o que foi plantado”. E este já não é o tempo de Jardim, tal como não o foi de Soares. Não há aqui o mesmo risco e, ao contrário do que aconteceu com o histórico socialista, Jardim vai ganhar mais uma vez. Porque a realidade madeirense está moldada à sua imagem e semelhança. A maioria dos madeirenses pensa como o próprio presidente do Governo e considera que não é possível viver de outra maneira. A oposição tem ajudado é certo, mas o culpado maior é do líder madeirense, que não deixa que a alternativa surja dentro do seu próprio partiido.

Cheguei a pensar que seria altruísmo. Candidatar-se para roer os ossos depois de comer a carne. Governar sem meios para variar. Mas o presidente do Governo tem sido igual a si mesmo, ignorando a crise, contornado aqui e além, nomeando mais uns funcionários quando a regra é outra.

E como se não bastasse ainda tem a distinta lata de escrever artigos no jornal que todos nós pagamos a criticar os gastos com órgãos de comunicação social públicos. A coerência nunca foi o seu forte. E tal como foi constrangedor ver Soares numa campanha que não era sua, o mesmo se passa com Jardim, que está num campeonato, onde 'domina' a arbitragem, mas não as regras do jogo, mostrando que vale tudo para conseguir mais uns patacos.

O povo não o vai afastar, e é pena para a Madeira e para o próprio que Jardim não tenha sabido sair de cena pelo seu pé. Ambos mereciam essa dignidade.