Quando era criança, achava que o mundo já era injusto, talvez por ter estudado numa escola de freiras e ver como elas tratavam as meninas do "Colégio de Cima" e as meninas do "Colégio de Baixo", mais os pobrezinhos a quem dávamos anualmente um saco de oferta e que redimia os pecados sabe-se lá de quem. Os meus não eram, de certeza. Naquele espaço cristão, uma quinta enorme de arvoredo e amores perfeitos a delimitar canteiros, existia dois colégios religiosos. O rico (o de cima) e o pobre (o de baixo). Dividido ao meio e sem qualquer contacto - hoje comemora-se 20 anos do decreto que colocou um fim ao sistema de apartheid na Africa do Sul - com entradas diferenciadas e sinais exteriores que marcavam deliberadamente a diferença. Isto passou-se no Funchal. Eu, por exemplo, tive direito a farda azul com gravata e farda branca para as procissões. Por sorte ou não, não escolhi, mas tive. Mas a minha melhor amiga, aquela companheira com quem eu gostava mesmo de brincar, encontrava-se do outro lado do muro. Quantas vezes joguei a bola da "matança" com todas as forças por cima da cerca só para tentar uma fuga, obrigarem-me a resgatá-la no espaço religiosamente interdito. Nas procissões anuais, o Corpo de Deus era a principal, lá íamos nós com aquela farda especial, branca e alva, coroa de rosinhas por entre os cabelas, princesinhas, umas atrás das outras, fazer o percurso de uma élite tonta. Eu sabia que a minha amiga estava por ali anonimamente, talvez na rua do Aljube, escondida na multidão que se benzia. Nunca me esqueci desse tempo que, afinal, não só deixou a letra bem feita, redonda, aprendida com caneta de aparo enfiada no tinteiro, boas notas à força, mas que marcou uma personalidade e me fez abrir os olhos demasiado cedo. Pelo menos, obrigou-me a questionar o catecismo e a prática católica de confessionário que me punha de castigo a rezar ave-marias às dúzias porque de vez, em quando, dizia que cometia o "pecado da gula" com o bolo de bolacha da mãe, o único que ela fazia de jeito. Era mentira. Não gostava de bolo de bolacha. Mas tinha de ter algum pecado mortal. Estas imagens do passado soltaram-se quando revi, recentemente, fotografias a preto e branco, e percebi quanto foram duros aqueles anos. Ninguém batia em ninguém mas a rigidez de ensino, um pesadelo. Medo quando ouvia o tilintar das contas da freira à cintura, e que ela por vezes agarrava para não se denunciar. Aprendi a escrever bem, sem erros, tive logo noções de latim e francês e convivi com Gugunhana que me assaltava os sonhos. Colado na parede direita da sala da 4ª classe, mal podia encostar-me sem bater com a cabeça numa gravura a cores, representando o último rei do Império de Gaza e o último monarca da dinastia Jamine, humilhado pelos portugueses, com as mãos e pés presos por correntes, curvado e cabeça baixa à entrada da palhota. A cena incomodava-me, tal como o muro que me separava da amiga sem farda. E era assim que me sentia, uma espécie de pequena Gugunhana quando me obrigavam por castigo a cumprir uma ordem só porque era uma ordem. Recordo ainda, imagens tão pedagógicas como aquelas em que as professoras colavam a folha do ditado nas costas das alunas com mais erros, obrigando-as a ir para casa naquelas preparos. Sabia tabuada e álgebra, desenhar pontes sobre rios que não existiam, gramática exemplar, mas isto não era ensino. E espero, sinceramente, que nunca regresse. O problema é que muitos de nós, passados os anos, romantizamos a coisa. Mas se analisarmos bem, até ouvimos o som da régua atravessar o ar. * jornalista do DN-Lisboa, na Madeira

Lília Bernardes*