Agora que se aproximam as férias de verão e temos mais tempo livre, devíamos tentar aproveitar a fuga às rotinas diárias para tentar despertar a criatividade que pode estar escondida dentro de nós (ou aproveitar estes dias para criar mais, se já descobrimos o que nos move). Pablo Picasso costumava dizer que apenas se sentia descontraído quando estava a pintar e era quando não fazia nada que sentia cansaço. Norman Cousins, no seu livro "Anatomy of an Illness" conta um episódio impressionante sobre o violoncelista Pablo Casals, que tinha quase 90 anos quando Cousins o conheceu. Na altura, Casals sofria de artrite e enfisema e estava tão debilitado que solicitava ajuda para sair da cama e vestir-se. No entanto, imediatamente depois de vestir-se, arrastava-se até ao piano e com grande esforço tentava fazer chegar os dedos perros e inchados até o teclado. Assim que ele começava a tocar (normalmente "Das Wohltemperierte Klavier" de Bach), Casals transformava-se e Cousins descreve a sua metamorfose desta forma: "Os dedos lentamente tentavam chegar às teclas do piano como se fossem botões de uma planta em direcção à luz do sol. As suas costas endireitavam-se. Respirava com maior soltura. (...) O seu corpo já não estava perro e encolhido, mas flexível e gracioso e totalmente livre dos sintomas da artrite." Só depois deste ritual diário é que Casals tomava um saudável pequeno-almoço e fazia uma caminhada a beira-mar. Tal é o poder da Arte, a força deste Espírito Criativo que ultrapassa as limitações físicas e que todos devíamos procurar em nós mesmos. Porque este Espírito é a nossa própria vida, é a parte mais importante de nós, é a expressão da nossa alma - o resto é apenas um conjunto de membros, articulações, estômago, apetites e materialismo.

Roberto Macedo Alves, Desenhador de BD