Começo este artigo com uma declaração de interesse. Sou um utilizador de tecnologias, não as dispenso ou renego, mas também não abdico das abordagens críticas de que as mesmas carecem, sobretudo as que têm vindo a subtrair componentes materiais à vida humana. Talvez em contraciclo, num mês em que Steve Jobs anunciou o iCloud da Apple, uma solução tecnológica onde poderemos depositar todos os nossos ficheiros pessoais (!) -documentos, correio, fotografias, música, vídeo, contactos, entre outras funcionalidades- dei comigo a interrogar-me sobre os limites (ou a ausência destes) que estas facilidades tecnologias parecem acarretar, isto sem falar nas consequências ainda pouco interpeladas das mesmas. Vem tudo isto a propósito de um diálogo que assisti, recentemente, entre pessoas, que confrontadas com a nova proposta da Apple -o iCloud- pareciam considerar somente as facilidades. O sentimento de regozijo generalizado decorria da possibilidade de estar para breve o fim das sincronizações manuais entre diferentes dispositivos, como os computadores e os telefones. Com todos os conteúdos alojados numa "nuvem computacional" (iCloud), esteja onde estiverem os utilizadores, esses conteúdos estarão sempre com o utilizador, devidamente atualizados e sincronizados, graças às omnipresentes ligações sem fios que nos enredam e medeiam a ação na atualidade. Extrema satisfação foi mesmo o que retive dos intervenientes, na dita conversa, face à possibilidade de ninguém ter mais a necessidade de garantir procedimentos rotineiros de sincronia de conteúdos ou de providenciar um espaço físico para armazená-los, ainda que, no limite, essa aparente imaterialidade tenha de estar fisicamente em algum lado do planeta. Na verdade, face a tanto entusiasmo dogmático, a única dúvida que vi florescer sobre o tema teve a ver apenas com os eventuais custos da solução. Estranhei, tal era o desprendimento das pessoas envolvidas, nomeadamente, em relação à ponderação doutras implicações. Ainda tentei esboçar um apontamento irónico, mas não surtiu qualquer efeito. Acantonado na minha preocupação, fiquei a pensar que após terem-nos dessensibilizado para a posse física do dinheiro, segue-se agora o quê…? A virtualização total das memórias e das identidades? Se as nossas fotos, músicas, filmes e outros ficheiros estão destinados a ficar à guarda das "nuvens computacionais" -geridas sabe-se lá como, por quem e com que fins potenciais- a curto prazo, de quem serão efetivamente as nossas cabeças? Bom, não me vou alongar mais sobre o tema, está é só uma opinião breve, por restrição de espaço e para não ser tecnologicamente mal-entendido. Reafirmo: sou um utilizador de tecnologias. Também tenho cópias dos meus dados em nuvens computacionais, mas não fico indiferente à virtualização que varre o nosso mundo físico, em estado avançado de desmaterialização, que creio estar a moldar-nos. Para terminar, uma sugestão a quem possa interessar: nos próximos dias 17 e 18 de Junho, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, realiza-se a conferência Rethinking Jacques Ellul and the Technological Society in the 21st Century, uma oportunidade para refletir sobre o determinismo tecnológico e, consequentemente, a centralidade (ou não) das pessoas na contemporaneidade, quando está anunciada a chegada da grande nuvem…
Ricardo Fabrício