Os actores não são interessantes a falar sobre as suas opções políticas, ou melhor, sobre os seus partidos, como nos lembra Chaterine Deneuve. O mais forte é ver-se os seus trabalhos. As suas filosofias, não as ideologias. Acho que Cláudia Raia se arrependeu, profundamente, de ter apoiado Collor de Melo. É mais interessante ver-se os actores sentados no divã do que a serem divas, mas sentar-se num tal sofá (como o é escrever aqui) é tão íntimo e entupo-me se pensar nisso. Porém, é o que faço ou não vos conseguiria escrever. Não tenho vergonha por quem se manifesta; admiro manifestações. Dou meu corpo ao manifesto à minha maneira. E de bom grado abraçaria um "aterro" de seres que sinto precisarem do meu abraço de artista político. Como a rainha (da limpeza) do Largo da Cruz Vermelha e a sua vassoura - que ali reina há uns bons anos. E mais, abraçava o homem que ainda não caiu do muro da rua da Quinta do Leme onde se deita todos os dias desde os há que tempos que o vejo com suas barbas encardidas - das nossas humildades e fraquezas. Quem troca a morte e vida por isto está pronto a rebentar. O que é que é óbvio no Funchal e em nós, Madeirenses... insta à vida. Façamo-nos a ela. Os fantasmas não pagam impostos, mas consta que são eleitores e por isso existem. Vejo três seres: na rua da Quinta do Leme, no Largo da Cruz Vermelha e um que morre três vezes: um pai está em casa a morrer... Mandamo-lo para um hospital e depois mandam-no para casa. A gente marcha os santos. Ele marchou três vezes, morreu em casa, no hospital e depois em casa.

Élvio Camacho, Actor