A Madeira da minha infância estava inundada de crendices, repleta de "mau-olhado" e de "buchos virados". Havia benzeduras para quase tudo. Ouvi até à exaustão que o pior defeito do madeirense era ser invejoso. E as vítimas desse autêntico tormento sabiam o que lhes esperava às mãos da senhora fulana-de-tal lá do sítio. A ilha dentro de si era (é) fértil em coscuvilhice e em superstições próprias dos meios pequenos e atrasados. Qual de nós não ouviu histórias do arco-da-velha, recheadas de mortos-vivos, de almas penadas que atazanavam amigos e familiares a suplicarem orações que lhes salvasse de vez a alma pecadora e lhes permitisse o eterno descanso no reino dos céus? Era habitual levar-se as crianças à curandeira da rua ao lado, nem que fosse para fazer desaparecer as olheiras com um «perfume de alecrim» ou tirar o malfadado ar da cabeça, que tantas dores provocava. Assisti, atónito, a rituais de cura milagrosa, praticados por mãos sabedoras e cérebros toldados na crença popular. Não se questionava nada. Era assim e pronto. Verdades seculares. Mesmo no Funchal, capital da ilha habituada ao vai e vem dos paquetes carregados de outros povos provenientes dos quatro cantos do mundo. Os tempos mudaram e a evolução tecnológica encarregou-se de enterrar determinados dogmas, tidos como verdades absolutas. E o povo cresceu. Mentalmente, na aparência e até nas atitudes concretas. Passou a contar com informação à distância de um clique, a ter noticiários de hora a hora na televisão, a conhecer outras realidades para além da geografia insular. Qual a criança que, actualmente, não sabe o que é a Internet? Quando eu era miúdo a bicicleta e o quintal lá de casa eram o meu mundo. Os amigos eram feitos a pulso, cara a cara, e não «empilhados» aleatoriamente como agora se faz numa qualquer rede social. Os tempos mudaram, definitivamente. Instituições tidas como inabaláveis, começando pela própria família, transfiguraram-se. Alguém apostaria um cêntimo que fosse que iríamos aceitar em poucos anos o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo ou a legalização do aborto? Mesmo numa terra pequena, rodeada de mar por todos os lados, a informação jorra e as mentalidades, não têm outro remédio, são obrigadas a abrirem-se ao mundo. É impossível suster essa vaga de fundo. O país está enterrado numa grave crise financeira e não há curandeiro possível que consiga dar a volta a este estado de coisas. Pelo menos no actual espectro político. A Madeira não escapa a esta onda malévola que arrasta consigo uma carestia sem igual. Somos pobres e ficámos, a cada dia que passa, cada vez mais pobres. Muito se tem dito e escrito sobre os devaneios dos políticos, maus gestores da causa pública e dos nossos impostos. E o que vemos diariamente? Institutos, fundações, clubes e empresas públicas que gastaram e gastam à tripa forra, que canalizam verbas para investimentos dúbios, faraónicos e que não servem de todo a população. Quando queremos apenas conhecer a verdadeira extensão do descalabro financeiro que nos rodeia somos surpreendidos por factos inenarráveis e contraditórios. Tal como antigamente, onde a maior parte acreditava nas crenças e nos assuntos do sobrenatural, a classe política deste regime deseja que continuemos de olhos bem fechados para a sua incompetência e para a sua incapacidade de ver um pouco mais além do seu próprio umbigo. Não será momento para um abanão forte neste establishment confortavelmente instalado? Pode ser, sim senhor, com a ajuda de alecrim aos molhos, de rezas e benzeduras. Anote, caro leitor: estamos de novo com eleições legislativas à porta, já em Junho. Seguem-se as regionais na Madeira…

Roberto Ferreira