Fátima Nascimento São um caso engraçado os conselhos. Dão-se com uma facilidade tremenda! Mal a pessoa acaba de contar a sua miserável história lá vem o conselho. E há-os de duas espécies: os bons e os maus disfarçados de bons e há aqueles que não servem para nada. Talvez possamos juntar estes últimos aos maus conselhos. Logo se vê! E o mais engraçado de tudo é que são aqueles que menos sabem quem mais dão conselhos. Refiro-me a um caso particular de pessoas mas este é um caso transversal a todas as classes. Estou há já alguns meses com uma depressão derivada a um conjunto de factores pessoais e laborais que me arrasaram. E os progressos são lentos e, mesmo nessa lentidão, há recuos. A minha mãe que não sabe falar de mais nada do da sua vida, em vez de se calar, conta às pessoas o que se passa comigo, não o que se passa com ela, mas o que se passa comigo. Ora, certas pessoas que pouco ou nada sabem destas doenças, pouco ou nada deveriam opinar. Mas têm sempre qualquer coisa a dizer. A minha mãe tem de facto um problema. Acha que eu, sem ela, não sou nada. Passa o tempo a correr para a minha casa, quase duas vezes por dia. O que nos aborrece bastante porque sabemos que também vem controlar. É mesmo o feitio dela. Então, segundo deduzi das poucas palavras dela, era que tinha ido ao médico e tinha-se queixado da vida que a levava a correr de um lado para o outro. Devo dizer que não percebe nada de doenças do foro psiquiátrico também. Então veio, num dia à tarde, com esta conversa. Que deveria dedicar-me aos trabalhinhos de casa que distraem. Isso faz quem não tem mais nada para fazer e se aborrece. É um conselho para o aborrecimento, não para este tipo de doença. O que acontece é que a minha mãe, mesmo que não quisesse, anda sempre preocupada, o que lhe causa uma certa ansiedade, desabafou comigo dizendo que até lhe haviam dito que me deveria ocupar da casa que distraía. Ora, se não me ocupasse da casa, como é que ela não estaria já! Mas para a exigência da minha mãe, nunca está bem. Nunca a ouvi dizer que qualquer coisa estava bem. E a rotina, não há dúvida que ajuda um pouco, mas não é tudo. E a falta de ânimo? Este agressor mental que nos leva a alhear-nos de tudo fazendo-nos, muitas vezes, que tudo é melhor do que viver. É isto que as pessoas não entendem, nem querem entender. Ou, então, levarão algum tempo a consegui-lo. Não as culpo. Não é uma doença que se note (os mais distraídos e pouco reflexivos) e as pessoas mais superficiais são aquelas que dão a sua opinião revelando um tal orgulho que fazem as outras sentirem-se parvas. Pode ser que as coisas mudem, ainda que lentamente…