Tinha pensado voltar a escrever sobre política. Sobre a crise nacional, a queda do Governo, as eleições antecipadas, os recados de Cavaco. Ou sobre os políticos que temos por cá e que nunca têm culpa, aqueles que sabem tudo... e não deixam nada. Mas a ideia assustadora de saber que há famílias que vão ter de se desenrascar com apenas 250 euros no mês da Páscoa (com descontos fica em 220) perturba-me bastante. Porque não é uma imagem fictícia, antes pelo contrário. É tão real como a crueldade de quem põe estas famílias ao nível das preocupações com a limpeza do pó na Quinta Vigia. A insensibilidade de quem tem dois ordenados permite estas coisas infelizes. Mesmo sem dispor de elementos que me possam falar do modelo de administração de uma instituição que parecia ter tudo e agora não tem nada, há um elemento fulcral: há dívidas do Governo por pagar. E, aparentemente, são essas dívidas que impedem a empresa de pagar aos funcionários a totalidade do seu salário referente ao mês de Março e são esses que vão ter de passar este Abril com menos de 50 contos na moeda antiga. Dirão alguns que houve falta de planeamento, que já se sabe que o Governo paga tarde e mal, que houve ambição e confiança a mais. Pode ser que tenham razão. Mas isso não dá o direito a nenhum Governo de ultrapassar prazos, como este tem ultrapassado. De falhar compromissos, como este tem falhado. E, atenção, que apenas se fala da Medical Center porque é das poucas empresas que tiveram a coragem de assumir a ruptura, de a tornar pública e de processar o Governo Regional. Quantas outras terão vivido em dificuldades, recorrido à banca ou até mesmo fechado portas sem que ninguém percebesse que no cerne da questão estavam os atrasos nos pagamentos do Governo? Recentemente o secretário dos Recursos Humanos assumiu a dificuldade em resolver o problema do desemprego, que é uma realidade à escala global. Pois aqui fica uma modesta contribuição: que tal convencer o seu Governo a pagar a tempo e horas. Que tal tentar evitar que mais 200 pessoas vão para o desemprego ainda antes do Verão? Não resolve o problema do desemprego, mas ao menos não o agrava. A ideia é simples: quando não se sabe como promover o emprego, manda a prudência que não se crie mais desemprego.