Começo por uma declaração de interesses: Sou um Empresário do Sector da "Economia" real, num Grupo que emprega perto de 550 trabalhadores na Madeira. Nestes últimos tempos que temos vindo a atravessar, com muito pessimismo e muita vontade em reduzir os grandes culpados, às escalas regional e nacional, tive a oportunidade de ler o livro do Tony Judt "Tratado sobre os nossos descontentamentos" e ver esse fundamental vídeo que foi distribuído com a última edição do Expresso - "Inside Job". Pelos ensinamentos que colhi e pelos alertas com que fui provocado, não posso deixar de recomendar vivamente estas obras a quem tem da política uma visão que ultrapasse o seu próprio umbigo. Voltei a ser alertado para o facto das "ímpias" sociedades de rating que põem e dispõem da estabilidade dos mercados, serem aquelas que, atribuíndo os melhores "ratings" a empresas insolventes, viram os prémios dos seus Administradores subir em "flecha", após as falências das mesmas. Revi como a especulação no mercado dos "derivados" nos anos de 2008 e 2009, estimulou a incerteza nos produtos, a volatilidade dos activos e a subida descontrolada das taxas de juro, gerando nos EUA, por exemplo, a desocupação de 9 milhões de casas por impossibilidade de cumprimento dos encargos hipotecários. E li algo no livro de Tony Judt que me deixou muito marcado: com o desenvolvimento da economia "globalizada", a riqueza gerada pelo tecido empresarial não tem fronteiras, pois busca o melhor entorno para a remuneração dos seus investimentos. O que tem sim fronteiras, são as responsabilidades sociais de cada Estado e dentro deste, de cada Região, com um protagonismo a funcionar na razão inversa do desenvolvimento. Portugal, e a Madeira mais concretamente, têm uma localização geográfica hostil, no que se refere à proximidade do centro europeu das grandes opções de desenvolvimento e respectiva sustentabilidade. Temos a agravante de estar separados da Europa, por um país que se considera periférico - a Espanha. Comparemo-nos com a relação existente entre a Bélgica, a Holanda, a República Checa, a Polónia, etc.. e o grande motor do desenvolvimento europeu que é a Alemanha, no que se refere a distâncias, meios de acesso, matrizes culturais e educacionais, etc.. Estas diferenças são estruturais e não podem deixar de ser assumidas num ambiente de "solidariedade europeia". Num interessante trabalho publicado recentemente pelo DN reproduzindo números do INE, dava-se conta que, dos cerca de 247.000 habitantes residentes na RAM, 121.700 estavam empregados. Quer dizer, grosso modo, 1 em cada 2 habitantes estava empregado. Mas, quanto a mim, a maior preocupação é que cerca de 35.000 madeirenses (cerca de 30% da população activa) estão ligados directamente ao grande arco do sector público. Sem fazer juízos de valor, sobretudo acerca das grandes alternativas (ou ausência delas), chega-se facilmente à conclusão que não há maior desemprego na Região, porque muitas Instituições públicas absorveram esse mais que "potencial desemprego". E, por tudo isto, olhar para o futuro na Madeira, deverá significar, mais que prioritariamente, garantir novas oportunidades de emprego, com engenhosos apoios na sua captação. Mas sejamos coerentes: não é com a entrada do FMI ou de outros Fundos de Resgate em Portugal, que a situação de empregabilidade melhorará.

António Trindade, Hoteleiro