“Mas vocês têm sempre café?”. A pergunta foi-me feita ontem por um jornalista de um conhecido jornal económico internacional, na sala de imprensa da Presidência da República. Respondi-lhe, meio estupefacta, que sim, que é comum haver ali uma máquina para os jornalistas se servirem enquanto esperam por reuniões como a do Conselho de Estado. Ainda acrescentei que o café não era fantástico, mas ainda assim ele estava maravilhado.

“E também é habitual terem Internet?”, interrogou no mesmo tom de admiração, a propósito da rede wireless disponível. Aí, fiquei estupefacta. “Pois, claro, então não é a Internet uma ferramenta crucial da comunicação de hoje?”. O meu interlocutor, cuja sede de trabalho é em Londres, anuiu, mas garantiu que nem sempre tem encontrado as mesmas condições por onde tem passado.Respondi-lhe meio a brincar, meio a sério: “Deve ser por coisas destas que as nossas contas públicas estão como estão”.

O que costumo ouvir (às vezes até do meu pensamento) na mesma sala de imprensa da boca dos jornalistas portugueses é que devia haver uns bolinhos, umas bolachas. Ar condicionado e mais isto e aquilo.

Na verdade, temos sempre grandes expectativas e as nossos olhos são sempre muito maiores que a nossa barriga e sem dúvida que a capacidade do nosso bolso. A classe política, responsável pela má gestão que tem sido feita nos últimos tempos e que nos conduziu a um estado de coisas miserável, é o reflexo daquilo que somos como povo. Esbanjador e irresponsável. Capaz de cometer desvarios consumistas, para os quais não está preparado. Com o sistema bancário a ajudar é certo. No caso de quem governa com uma agravante grande: É que a ‘coisa pública’ que administram não é deles e portanto na altura de penhorar o que é de todos e não é de ninguém, é fugir de fininho e de preferência atirar a culpa para outros.

Enquanto ouvia o discurso grave de Cavaco Silva, uma pergunta pairava: “Como chegamos aqui?”. Lembrei-me daqueles exemplos vergonhosos que toda a gente conhece dos jornais. Aqui e além milhões deitados ao vento. Concursos criados à medida de amigos, gestores de empresas públicas com ordenados de fazer corar o de equiparados em países verdadeiramente grandes. Por cá um jornal de propaganda que é um sorvedouro do nosso dinheiro e marinas e promenades para ninguém.

Temos todos um bocadinho de culpa. Uns mais que outros, é certo, mas não há quem não queira um cafezinho de borla. Desenganem-se, porque não há cafés gratuitos. A conta vem tarde e com juros.