As facilidades incomensuráveis oferecidas ao desporto ao longo de mais de três décadas, não desculpam, por si só, a passividade cultural que nos envolve e que nos acanha. Poucos, muito poucos remaram contra a maré. Falo especialmente dos eleitos que escolhemos e que lhes pagamos para gerir os nossos recursos. Poucos ousaram trilhar o caminho espinhoso, mesmo sabendo ser este o único acesso ao singular perfume que a rosa e só a rosa pode oferecer. A cultura e as artes geram riqueza. Tivemos todas as condições para sermos uma região cultural de excelência e esse seria concerteza o nosso melhor contributo em prol da região e do bem estar dos madeirenses . As opções desportivas cegas, os rios de dinheiros públicos aí desbaratados, a sede de protagonismo dos senhores da bola e a ganância pelo poder a qualquer preço, secaram tudo em sua volta. Tome-se como exemplo a Camacha. Durante largos anos distinguida por todos como o principal centro da cultura popular tradicional, título merecido e que advinha das próprias vivências locais. Canaliza recursos, aposta no futebol e num ápice toda a actividade cultural eclipsa-se. Atente-se nos cortes à cultura em contraste com acréscimos ao futebol, decididos pela edilidade santacruzense, à pouco mais de um ano, sob a batuta do ainda presidente e outrora principal mentor das tradições culturais camachenses. Em finais dos anos noventa, em resultado de umas aulas de viola e bandolim que disponibilizei a grupo de jovens da Raposeira, fundei uma associação cultural local, sem qualquer apoio público. Passado relativamente pouco tempo, tínhamos uma tuna de bandolins apresentando-se em palco. O facto de ser a terra da minha cara metade, naturalmente que atiçou o meu empenho mas, o certo é que a participação dos jovens locais, permitia adivinhar a formação de novos músicos e assim assegurar a continuidade da associação. A minha ligação ao Recreio Musical permitiu também a disponibilização de alguns meios, a junta de freguesia local ofereceu apoio para meio computador e as coisas começaram a ganhar forma. Mas eis senão que pelo silêncio duma manhã de sábado eclodem irritantes buzinadelas, anunciando a chegada da carrinha que passaria a transportar os jovens, entretanto aliciados pelos tais clubes que, nadando em dinheiro público, podem dar-se a uns quantos luxos o que, numa terra rural, onde a fixação dos jovens é o que se sabe, destrói toda e qualquer estrutura cultural existente. Move-me tão só a certeza de que vamos corrigir estes erros e de que para tal precisamos apenas de agarrar a actual crise, com unhas e dentes.

Eurico Martins, Director artístico da Orquestra de Bandolins da Madeira