Já tivémos um hospital novo em projecto, que era muito mais do que um desenho, que avivou expectativas aos que há muito anseiam pela saúde, que alimentou promessas, votos e a longa agonia dos expropriados. Já sabíamos que muito dificilmente o verdadeiro Hospital Central do Funchal seria uma realidade na próxima década, mas era uma boa herança para deixar aos nossos filhos. Mas eis que por fim ficamos a saber que o prometido hospital que já nos custou cerca de 4 milhões de euros só em projectos, não passará, afinal, de uma boa intenção. Porque é muito caro, porque os tempos estão difíceis, porque o Governo da República não foi solidário e, sobretudo, porque não o considerou prioridade no seu Orçamento de Estado.

Muito bem. Então quais são as mais volumosas prioridades eleitas pelo Executivo do dr. Jardim: o estádio do Marítimo onde empregou mais de 45 milhões do erário público? A marina do Lugar de baixo cujas opções técnicas sairam logradas, tendo já consumido 70 milhões de euros? Ou a urgente megalomania da requalificação urbana sobre o aterro marítimo do Funchal que promete desterrar à volta de 50 milhões de euros? Não fosse a Madeira um paraíso oco envaidecido onde se morre mais cedo em Portugal (ou onde se vive menos cinco anos do que a média do país), onde se escondem as vergonhosas listas de espera para cirurgias das mais variadas especialidades onde sobram nomes de gente que já partiu deste Mundo, eu até compreenderia que era mais importante uma operação de estética no litoral nobre do Funchal, uma marina para os ‘skippers’ amarrarem os seus iates ou um estádio para animar o povo embevecido enquanto 'Roma' arde.

É verdade que Santa Rita congrega uma das áreas mais bem preservadas de produção de banana, mas haverá alguma obra de utilidade e de interesse público maior que a construção de um hospital? Deitar ao lixo um projecto de 4 milhões de euros para um hospital novo que prometia mudar a face da saúde pública na Madeira, numa área ampla onde estavam previstas as alterações na rede viária, as valências clínicas, os blocos de serviços médicos, parece-me um exercício profundamente inconsciente, insano, relevador de um desnorte governamental que se acentua e que roça mesmo a gestão danosa.

Depois do embuste do novo hospital em Santa Rita, a nova versão que nos está a ser ‘vendida’ - um Hospital Dr. Nélio Mendonça requalificado, ampliado, moderno, concentrando todos os serviços clínicos e a cheirar a novo - é algo simplesmente surreal. Sem projecto (nem mesmo um desenho da 4.ª classe), sem orçamento, sem objectivos claros e com o próprio governo à nora sem saber bem o que vai sair dali - executar o quê, exactamente onde, como, quando, para quantos - ou o que fará com as outras unidades como os Marmeleiros, tudo só para contrariar e procurar fazer ricochete com o Governo da República é demasiado grave para ser levado de forma branda. Já são muitos anos a brincar aos hospitais e os madeirenses merecem uma política de saúde com rumo certo e um serviço público dirigido por profissionais que saibam distinguir um hospital de um bordel.

Será um mal menor esquecer o hospital novo para ter um hospital remendado para nos remediar? O Governo Regional já decidiu que o que os madeirenses terão direito é a um Dr. Nélio Mendonça ampliado. Depois então é que estudará a capacidade geológica e geotécnica do projecto (que ainda não existe) e avaliar se tudo isto (que até, imagine-se, já tem prazo de execução de três anos), será um dia exequível. Tudo é tão invertido e surreal - as prioridades, o método, a competência - que o melhor mesmo é enxergar com os nossos próprios olhos a complexidade da obra no perímetro hospitalar e descobrir um lugar vago entre o precipício do Ribeiro Seco e aquela encosta de bananal. Imaginar as derrepagens financeiras de consolidação da escarpa, os movimentos de vertente que, invariavelmente nunca constam nos cadernos de encargos e nunca estão previstos nos projectos iniciais e obrigam a injecções financeiras, a intervenções excepcionais e adiamentos nos diversos prazos para conclusão das fases que se adivinham ser imensas.

Mas, como um hospital construído de raiz não é prioridade, teremos um semi-novo remendado. Com tudo isto, mais vale ir comendo bananas. Dizem que a vitamina B contém sais minerais, que são um bom fortificante para os ossos e para o sistema nervoso. Porque daqui a termos um verdadeiro hospital, a gente tem de viver. E viver muito. Pacientemente e com a saúde possível.