Quis o destino numa clara provocação às minhas frágeis capacidades carnavalescas, que este meu artigo de opinião "caísse" exactamente na terça-feira de Carnaval. Se é verdade que o meu perfil se desenha em três traços - tímido por natureza, contido por educação e reservado por opção - logo se pode adivinhar a minha enorme tentação em dizer que há mais vida para além desta Terça-Feira de Carnaval. Ele é o aterro da Avenida do Mar que desenterra paixões ambientalistas, contabiliza interesses económicos e já divide "companheiros" …. o Hospital Cruz de Carvalho construído no tempo da Madeira Velha e que hoje, a Madeira Nova humildemente agradece e reconhece uma visão de futuro que vai durar mais quarenta anos …… o Sr. José Manuel Coelho ensarilhado nos milhares de votos que o descontentamento lhe entregou e que novos "amigos" e velhos "inimigos" querem derreter, na fogueira da pequena politica …… o acordar estremunhado e sobressaltado do PS-Madeira quando o seu Presidente sentiu necessidade de agitar as aguas internas do partido, correndo o risco de desgastar o que é frágil, dividir os poucos consensos e desfocar o que nunca foi claro ….. Apesar desta minha tentativa de desviar o olhar desta Terça-Feira de Carnaval, tenho de confessar que também eu, estive presente numa festa de Carnaval. Virtual é certo, mas onde o imaginário do Entrudo, me permitiu cruzar com personalidades públicas, pessoas importantes, que mascaradas a rigor, não quiseram faltar. Lamentavelmente o Sr. Presidente da Republica não esteve presente porque já se tinha comprometido com sua esposa, filhos e netos, ir passar o Carnaval a Boliqueime, onde tudo é bem mais decente e regrado. Também ausente, o Sr. Primeiro-ministro tinha partido para a Alemanha, entregar à Sr.ª Meckel as medalhas de ouro e de prata conquistadas há dois dias por Francis Obikwelo e Nádia Gomes, certamente para abater na divida. Contabilizadas estas duas ausências de vulto, lá entrei na festa onde Paços Coelho, mascarado de Branca de Neve, era seguido por setenta e sete anões, já vestidos de ministros e secretários de Estado. Reparei que se insultavam e que até passavam rasteiras uns aos outros. A um canto, Santana Lopes com um lenço na cabeça, misto de pirata das Caraíbas e Júlio Iglesias, conversava com uma Cleópatra, exemplarmente mumificada mas que como cavalheiro, não revelo o nome. Passou por mim um mascarado de submarino, que quando sorriu, vi logo na brancura dos seus dentes, ser Paulo Portas. Num reservado autónomo, onde circulavam charutos clandestinos, um grupo de mascarados ouvia em silencio o "discurso do rei", circunstancialmente ausente. Por entre a neblina do fumo dos charutos que não permitia identificar as personalidades, emergia uma figura elegante e bem cuidada, um pouco distanciada do grupo, trajando à maneira de D. Sebastião na sua armadura reluzente e onde a espada que repousava na bainha, não escondia o receio de uma traição e confirmava, seguramente, a sua determinação em defender o seu reino. E mais não digo, pois a prudência aconselha a resguardar os amigos! Agora que já dei o meu modesto contributo para as brincadeiras de Carnaval, só espero que um dia destes, não me apareça lá em casa, a factura desta festa, que repito, nunca existiu e é pura ficção. Mas se tal acontecer e como já estou habituado, mascarado de contribuinte, lá terei que ir pagar no prazo legal e sem direito a reembolso.

Manuel Brito