Nos curricula do 3º ciclo do ensino básico e no 12º ano do ensino secundário a Área de Projecto é a única oportunidade que os alunos têm de se confrontar e resolver problemas de carácter transdisciplinar. No âmbito das diferentes disciplinas, resolvem-se problemas relativos a essas disciplinas. A Área de Projecto é uma área não disciplinar, ou seja, não tem um programa propriamente dit, à semelhança do que acontece com as demais disciplinas. O que se pretende nesta área é que os alunos, perante problemas ou necessidades detectados, aprendam a desenvolver as competências adequadas à resolução desses problemas ou satisfação dessas necessidades, prestando-se, por conseguinte, à realização de actividades de "banda mais larga", que ultrapassem os limites estreitos dos saberes puramente disciplinares. Os problemas ou necessidades que nos surgem no dia-a-dia, seja qual for a sua origem, não são normalmente de natureza disciplinar, ou seja, não temos capacidade para os resolver recorrendo unicamente a conhecimentos de um determinado tipo ou disciplina. Normalmente temos de juntar conhecimentos de vária ordem e recorrer a diversos métodos e técnicas para que esses conhecimentos possam ser utilizados na resolução desses problemas concretos. Só se aprende a resolver problemas, resolvendo-os efectivamente. Se ao longo dos anos de escola não preparamos os nossos alunos enfrentar, de forma pró-activa, situações de natureza variada, eles dificilmente terão essa capacidade na sua vida futura adulta enquanto cidadãos e profissionais. A área de Projecto, assim como anteriormente a Área Escola, sempre foram "mal amadas", tanto pelos professores como pelos encarregados de educação, que, pura e simplesmente não entenderam o que se pretendia exactamente com estas áreas. A sua introdução nos curricula não foi devidamente acompanhada da necessária formação de professores que garantisse a sua correcta leccionação. Cada escola interpretou o articulado à sua maneira e fez como podia e como sabia. Numa escola onde leccionámos foi seleccionado, como tema comum para ser tratado no âmbito da Área Escola, o seguinte: "Da minha janela eu vi". Temas como este, com esta abrangência e generalidade, não têm normalmente "ponta por onde se lhes pegue". Nas situações mais corriqueiras, mesmo naquelas em que são escolhidos temas mais operacionais, normalmente ligados à ecologia ou ao ambiente, subsiste, no entanto, a convicção de que o importante é a produção no final de um qualquer artefacto, seja ele um texto, um multimédia ou um objecto de outra natureza. A Área de Projecto promove a utilização de métodos e técnicas, de forma a suscitar a criatividade e a resolução de problemas, dos quais salientamos, por exemplo o "Brainstorming" e o Método de Projecto para além de outros dependendo da natureza e áreas do saber em que se situam os diferentes projectos. A verdadeira riqueza em termos pedagógicos da Área de projectos não reside no artefacto produzido, mas o trabalho de equipa, a experimentação e vivência dos métodos atrás referidos, que conduzem a aprendizagens significativas e capacitam os alunos para a resolução efectiva de problemas. Nenhuma outra disciplina curricular tem esta vocação e suprimi-la dos curricula é tornar o nosso ensino mais pobre. Enquanto os países com os sistemas educativos mais evoluídos do que o nosso, procuram contextualizar o seu ensino orientando-o para a efectiva aquisição de competências pelos alunos, nós malbaratamos a única "disciplina" que congregava saberes multidisciplinares, métodos e processos necessários aliados á oportunidade de "em laboratório" os alunos aprenderem a resolver problemas. Através do Dec. Lei 18/2011 mais uma vez constatamos a insensibilidade de Sócrates para a Educação, para a qual tem apenas uma agenda económica à qual sacrifica tudo e todos. Ao acabar com a Área de Projecto, o governo mostrou bem o quanto lhe é indiferente preparar os alunos, melhor ou pior, para a vida activa.
Hélder Melim