Nenhum temporal, por mais violento que seja, conseguirá calar a alma de um povo habituado a ludibriar as adversidades climatéricas, e a contornar as partidas que a natureza lhe tem pregado. Pode demorar, mas esta gente sabe o que quer. Para onde vai e como vai. De Lisboa acompanho com alguma atenção o percurso das personalidades políticas que se batem por um lugar de poder na Região. Objectivamente pouco mudou ao longo destes últimos 20 anos. Parece que ninguém consegue retirar nenhuma ilação sobre as três décadas de poder jardinista. Os agentes da oposição regional pouco constroem e teimam em propagar o discurso da terra queimada, extremando posições e cultivando uma patológica obsessão pela personalidade que (para bem e para o mal) nos governa há 30 anos. Desculpem-me a frontalidade, mas ainda não descobriram o essencial: comunicar com eficácia com os destinatários. Com os eleitores. A mensagem não passa, é redundante. Pior, não consegue fazer ondas. Dissipa-se na zona da rebentação. Nem a mais exótica figura que emergiu no cosmos político regional nos últimos tempos está a saber gerir o bom resultado alcançado nas recentes presidenciais. José Manuel Coelho está a estilhaçar o inusitado monte de cruzinhas que o povo depositou nos boletins de voto. Entre guerras do alecrim e manjerona, está a esboroar o feito alcançado. Confesso que me tem dado gozo ver como se consegue destruir um capital interessante de apoios. Já percebeu Coelho que dessa forma não vai a lado nenhum, nem consegue transmitir confiança ao seu eleitorado? Vai porventura eleger-se, numa qualquer «barriga de aluguer». Enfim, uma trapalhada ao melhor estilo carnavalesco. Os restantes actores regionais não suscitam grandes leituras ou análises. O CDS/PP, com a dinâmica esforçada imprimida pelo seu líder, mantém-se na franja habitual, mas sem conseguir ser alternativa de poder. A CDU e o BE sobrevivem, com mais ou menos alvoroço e gritaria. Não surpreendem. Mais do mesmo. O PS/M é um caso perdido. Não descola, afunda-se. Enreda-se nas habituais guerras internas, não tem voz de comando. É um partido esfrangalhado, que luta por uma agenda diária paupérrima, que ninguém ouve nem tira nota. Os socialistas do Largo do Rato acham o mesmo: a Madeira é uma guerra perdida. O que sobra? O PSD e o seu eterno líder. Por mais que custe aos seus opositores, Jardim manter-se-á ao leme. Resta saber por quanto tempo. Porventura, até quando quiser e que a sua saúde lhe permita combater os sucessivos desafios que ele próprio «inventa», para se sentir motivado, a par com os desafortunados acontecimentos que têm sacudido a Região, especialmente no último ano. Nos tempos mais próximos a Madeira vista de fora vai permanecer fiel ao partido de sempre, ao chefe de sempre. Apostará na continuidade. Resta aguardar a chegada de novos rostos, de outra geração, que operem uma ruptura com a mentalidade dominante, castrada e formatada por uma determinada forma de fazer política e de estar na sociedade. As redes sociais podem ser um grande trunfo na difusão de novas mensagens. A forma como os líderes do futuro comunicarem será determinante. As iniciativas da sociedade civil, livre das doutrinas e disciplinas partidárias, têm de ser levadas em conta. Ninguém pode travar a evolução tecnológica. Que é boa e má. Ao mesmo tempo e na mesma proporção. Hoje não se consegue conter a crueldade não editada das redes sociais. Os que aspiram a ser líderes no futuro, próximo ou distante, não podem negar esta realidade, sob pena de serem penalizados por falta de comparência.
Roberto Ferreira