Eu sei que muitos dos que recebem Rendimento Social de Inserção não o merecem. Sei que há desempregados que não querem trabalhar. Que há mendigos que não querem outra vida. Que há famílias que não fazem um esforço. Que há gente em bairros sociais que vive melhor do que outros que pagam para ter o seu tecto. Sei tudo isso. Mas também sei que entre os que recebem RSI, subsídio de desemprego e casa do Governo há gente séria. Que se esforça, que quer trabalhar, ter as suas coisas. Convencido de que conhecia um lado e outro desta realidade, tenho de admitir que não sabia que na minha ilha, além do assustador número de mais de 16 mil desempregados, há ainda cerca de 14 mil pessoas que precisam da ajuda do Governo para matar a fome. Fui ingénuo, admito-o. Andei certamente distraído a olhar o carnaval da política madeirense e perdi-me. Perdi o fio à meada, nem prestei muita atenção ao que disse a representante do Banco Alimentar Contra a Fome sobre as carências alimentares na Madeira e, só agora, depois de ouvir o secretário regional dos Assuntos Sociais dizer dizer que temos 14 mil pessoas na Madeira que precisam de ajuda para comer é que me apercebi do circo em que vivemos. Da palhaçada onde estamos metidos. Do carnaval permanente que é a vida pública na Madeira. No meio da minha ingenuidade – ignorância, apesar de me custar admiti-lo – tenho de confessar que defendo um Estado social mas não um Estado de borlas nem vadiagem, que também a há. Acredito na responsabilização social, na partilha, na ajuda, na solidariedade e sobretudo no trabalho de cada um. Mesmo dos que não têm trabalho. Julgando saber tudo isso, há um aspecto que me escapa profundamente: como é que um governante pode dormir o sono dos justos sabendo que numa terra tão pequena há tanta gente a precisar de ajuda. Juro que não entendo. Como pode o magnânimo, o único importante desta terra, dormir descansado ao saber que ajuda indirectamente a criar a riqueza de alguns ao mesmo tempo que patrocina indirectamente a miséria de alguns outros, igualmente seus concidadãos, certamente seus eleitores. Como podem ficar descansados os secretários regionais e os presidentes de Câmara que vivem inventando desculpas à mesma velocidade a que criam programas para isto e para aquilo... quando temos 14 mil pessoas que precisam de ajuda para ter uma alimentação digna. Se algum Leitor me acompanhou até aqui, peço-lhe que façamos um simples exercício, se bem que monótono e demasiado descritivo: de que nos servem tantas festas quando há 14 mil com fome. São festas de folclore, de fogo de artifício, de bandas e conjuntos, de tradições artificiais, da banana e do pêro, da anona e da castanha, do turista e da cebola, da uva e do vinho, da cana-de-açucar e da cerveja, do limão e do emigrante. De que nos serve o túnel da Ponta do Sol transformado em parque de estacionamento. De que nos servem os parques empresariais na serra, se as empresas abrem parques onde mais lhes convém. De que nos interessam as marinas – e não apenas a do Lugar de Baixo – ou os viadutos por onde poucos passam. De que nos serve aquela ‘taça de sobremesa’ em betão que dizem ser o heliporto do Porto Moniz se um helicóptero não pode ali pousar. De que nos serve um parque urbano de São Vicente transformado num ‘ervado’ sem jeito. De que nos serve pomposo pavilhão do vulcanismo, também em São Vicente, ou o parque de campismo na Ribeira da Janela onde ninguém quer acampar. De que nos serve um parque temático em Santana que anda às moscas. E de que nos serve um aquaparque vazio a maior parte do ano. Ou tantos outros investimentos que ficam a léguas daquilo que pensava o Governo que iria acontecer? Dirão: que diabo, algumas dessas obras são importantes equipamentos públicos de uma sociedade moderna, são procurados por turistas, são o orgulho de emigrantes e de alguns residentes. Direi que sim. Concordo. Mas desde quarta-feira que não me sai da cabeça que, apesar de termos tudo isso, temos 14 mil pessoas que precisam de ajuda para não passarem necessidades alimentares. Políticas de inclusão social? Temos sim. Com cidadãos estrangeiros que correm atrás de uma bola e com a esmola que damos sob a capa de uma segurança social que é paga por Lisboa. Durmam bem senhores governantes.A maioria os madeirenses também continua a dormir.